Estou em clima de retrospectiva da década. Lembro-me de que entrei nela fazendo promessas para o milênio, sem muita esperança de cumpri-las por razões óbvias. Sou tão pessimista, tão pessimista, que pensava que o mundo não iria sobreviver ao bug do milênio. Quando veio o 11 de Setembro, encomendei minha alma. Não imaginava nem mesmo chegar a esta altura alta da História, de onde agora vislumbro o relógio (digital) das invenções a girar loucamente, à medida que o planeta se esvai pelo ralo.
Ver a humanidade "evoluir" é sempre um espetáculo surpreendente, quando não aterrador. Estou aqui para proferir solenemente o discurso fúnebre do ícone tecnológico que marcou esta década que os críticos de pop demoraram a chamar de 2000 por desconhecimento ou falta de charme no termo. Eis-me às lágrimas, ante o cadáver... do iPod, o tocador de mp3 da Apple que reinou despoticamente sobre a vida musical humana nestes primeiros anos do século. E eu que julgava não ser capaz de viver para ver a sua queda fatal!...
Sigo o cortejo que deve condizu-lo à morada do esquecimento. Merece campa tão imensa para uma engenhoca tão bela quanto minúscula? Ora, pois, como não! O despojo estirado respeitosamente ao mármore ritual evoca o apotegma latino "sic transit gloria mundi", assim passa a glória deste mundo. É um produto dotado de um design tão belo que seus vários modelos devem já figurar em museus do gênero. E nos lembra que todos, conquanto belos, volveremos ao pó. Nossa triste homenagem ao adorável quadradinho que tanto fez para a destruição da indústria da música e para a degeneração do ouvido dos consumidores. Que agora expira exânime para lamentação de muitas carpideiras geeks.
O decênio se encerra com a aniquilação de um inimigo. Eu poderia bramar que sua desaparição vai preencher uma lacuna e permitir que a música volte a soar íntegra e mais na enganadora miniaturização do arquivo condensado do mp3. Eu poderia acusá-lo de, a um só tempo, ter feito da iTunes Store a maior loja de downloads de musica do mundo e, ao mesmo tempo, ter disseminado a pirataria no mundo todo. De um lado criou um monopólio, de outro destruiu a concorrência. Poderia lançar as piores maldições em torno dos estragos que as gerações de minis, nanos e classics espalharam pelo planeta. Esses pequenos carrascos venderam aos consumidores a ilusão de que qualquer um poderia carregar sua discoteca num quadradinho de 150 gramas, que poderíamos nos livrar alegremente dos nossos CDs. Eles assassinaram os discos, a música clássica gravada, a irmandadade dos audiófilos... Tantas invetivas ainda seriam legítimas de invocar aqui.
No entanto, não serei vingativo ou cruel pela derrocada alheia. É melhor compreender os motivos da morte. O primeiro deles é o fracasso de vendas. Os iPods clássicos estão saindo de linha, por falta de interesse do público-alvo, aquele que deveria se interessare realmente em estocar músicas, mesmo que em tamanho miniatura. Logo os outros modelos despencarão em vendas.
O segundo é técnico. O iPod sai de cena porque deixou de representar a ponta da tecnologia. Com a aparição em 2007 do iPhone, com seu acesso direto à internet e a capacidade de fazer dowonloads e outras tarefas, o iPod perdeu a corrida tecnológica, porque não passava de um objeto tecnológico dependente dos computador, e operando no antiquado modo offline. Nem mesmo o modelo iTouch, imitado do iPhone, conseguiu trazer o aparelho à vida. O iTouch chega a ser mais canhestro que o patético Kindle da Amazon, pois exibe apenas as desvantagens do iPhone, sem a portabilidade de um iPod nano, por exemplo. Suas funções mais avançadas são meio ridículas.
O terceiro motivo é o artístico. Vivo a repetir, mas fá-lo-ei nesta hora grave, em que baixa ao túmulo o cadáver corrompido: os arquivos sonoros digitais são desprovidos de qualidades mínimas de audibilidade. Servem só para audiófobos que não difrenciam graves de agudos, dinâmica de altura. Filmar ou assistir a filmes em nanos de quarta geração pode ser uma experiência fascinante... se você for um protozoário que ame demais o cinema. Ou uma pulga com bons óculos para enfrentar sessões miniaturizadas.
A voga da "nuvem" pela internet e da tecnologia dos arquivos por streamings (assino, feliz, há um ano um serviço de streaming de música clássica que executa 200 mil arquivos digitais com qualidade de CD) e o surgimento de novos lançamentos de aparelhos digitais odem abrir olhos e ouvidos do público para tais verdades. Daí, sim, o consumidor irá lamentar o quanto éramos infelizes e não sabíamos, como as pessoas se comportavam como ingênuas na década de 2000 porque se resignavam a usar fontes de ouvidos para ter acesso a um som abaixo do horrível. Mais ou menos como hoje rimos de quem usava walkman da década anterior, ou do cinema mudo nos anos 1920. Jamais imaginei que eu poderia viver nos anos 10.... Quem sucederá o iPod? O iPad (o leitor digital), o iPed ou o ai-qualquer coisa?
Não é momento de prospecções, e sim de olhar para trás e prantear o tablete que perfaz seu melancólico destino. Ele deixou de ter importância, foi despojado de sua condição de símbolo, imprestável geringonça. Aqui jaz o iPod. Viva a música! Viva o cinema! Viva a arte descondensada!
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