sábado, 4 de maio de 2013

Roqueiros historiadores

Qualquer pessoa pode escreve o que quiser da forma que puder. Não me espanta que dois dos mais representativos músicos do rock brasileiro dos anos 80 estejam lançando livros. E que os livros tratem de momentos da história do Brasil. São eles João Barone, baterista da banda Paralamas do Sucesso, e o cantor e compositor Lobão. Barone lança 1942 – O Brasil e sua guerra quase desconhecida (Nova Fronteira, 288 páginas, R$ 35,90), um compêndio que conta a história e analisa a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Lobão envereda pelo ensaísmo cultural em Manifesto do nada na Terra do Nunca (Nova Fronteira, 248 páginas, R$ 39,90). Os dois chegaram à maturidade, estão com 50 anos, e agora podem tentar uma segunda carreira, ainda que tardia, na área cultural. Devem estar cansados de fazer as músicas de sempre. Conseguirão? 

Minha dúvida é se Lobão e Barone possuem de fato credenciais para tratar dos respectivos assuntos a que se dedicam. Estarão eles cultural e intelectualmente preparados para isso? Entre os avatares do passado tropicalista, Caetano Veloso realizou o sonho de ser crítico cultural, lançou um ensaio importante – Verdade tropical - e ganhou um coluna semanal no jornal O Globo. Ora, virar intelectual é possível. Até mesmo os roqueiros coetâneos de Barone e Lobão já partiram para a literatura. É o caso de Tony Bellotto, que redige romances policiais de relativo êxito há mais de uma década. Bellotto tem pelo menos o consolo de ser um escritor péssimo, mas não pior do que sua atuação como integrante da banda Titãs. Contrariamente a Bellotto, Barone e Lobão são músicos de boa qualidade. O problema é que a comparação entre suas obras musicais e suas empreitadas analíticas pode ser desvantajosa para estas últimas. 

Examinemos a obra "reflexiva" dos dois. Barone tornou-se fanático em Segunda Guerra Mundial por devoção ao tema e amor ao pai, que foi pracinha. Lobão dedica-se a praticar a difícil arte de polemizar a qualquer custo – e tem obtido sucesso em brigar com Deus e o mundo.  

Barone revela-se dócil, domesticado. Ele se debruça sobre a participação dos pracinhas com interesse. Mas não se sai bem, já que não tira todas as consequências da pesquisa que realizou. Entre suas teses, a mais curiosa é a que afirma que cidadãos nascidos no Brasil lutaram dos dois lados da Guerra.. Mas ele não vai fundo. Em um tom de enciclopédia estudantil, passeia pelos fatos, arrola dados, apresenta caixas com informações pitorescas. E não sai disso. Conclui seu estudo afirmando que os pracinhas, "caboclos brasileiros", foram bravos e deixaram boas lembranças entre a população do Sul da Itália. Uma conclusão sem graça. Sua obra é a de um louco louco pelo assunto. O livro poderia ter sido sobre a saga da bateria, o instrumento que Barone conhece como poucos. Talvez tivesse sido mais útil – e menos divertido para ele. 

Lobão merece atenção mais demorada pela pretensão e a destemperança que exibe. Adota o tom apocalíptico desde o prólogo versificado. O início parece promissor. Com a intenção de "mergulhar na alma do brasileiro", define o Brasil como "pocilga" e manifesta o seu ódio à intelligentsia nacional. Em seguida, porém, descamba. Ao modo de um velho polemista à direita de Átila, o Huno - Olavo de Carvalho -, Lobão exala todo seu rancor para fenômenos como o da música popular brasleira dos anos 60 e 70. Diz ele que Gonzaguinha é, ao lado de Edu Lobo, "uma das figuras mais insuportáveis da nossa MPB. Talvez o ser mais emblematicamente MPBístico que já habitou este país, músicas politicamente engajadas, uma certa alteridade sexual e alguns sambões maníaco-depressivos. Música para se ouvir comendo linguiça com cachaça". Os brasileiros não passam de "um bando de frouxos".  

A única coisa interessante produzida no Brasil, segundo Lobão, foi o modernismo, e, ainda assim, "terminou por se fixar como a doutrina dominante". O ponto máximo do livor é o diálogo que ele trava com o escritor Oswald de Andrade (1890-1954), por quem ele nutre "carinho e admiração", a fim de entender por que ele foi banido e "por que a gente é assim". O diálogo resultante só podia ser de surdos egocêntricos: Oswald vomita seus manifestos para Lobão revomitá-los com constatações do tipo: "você ficaria apavorado ao testemunhar a asfixia intelectual, cultural e ideológica, o ufanismo vagabundo, descabido e paralisante, a morte da complexidade, da vontade, da ousadia, da excelência, da memória em detrimento do simplório". Em Lobão, não há análise, apenas erupções de ódio com o Brasil No final, Lobão convida Oswald para beber no centro de São Paulo. Assim, Lobão nos presenteia com mais uma manifestação de frouxidão intelectual. Ele tem punch, mas não argumentos. Lamento muito. Teria dado um ótimo polemista. 

Ainda que Barone e Lobão pareçam ter preparo intelectual para qualquer tipo de reflexão, nem um nem outro se mostra intérprete confiável dos universos que aborda. Eles são a prova de que envelhecer não traz sabedoria nem prudência a ninguém. Em vez de oferecer uma interpretação sobre o passado brasileiro, apresentam não mais que preconceitos e esboços mal delineados de ideias ligeiras sobre os assuntos. Por isso, vale fazer uma última pergunta: por que editoras de grande porte estão lançando esses títulos, ao mesmo tempo que refugam obras fundamentais de história ou romances importantes?
  A resposta é pueril: as editoras creem que a mera menção de nomes de ídolos do rock é capaz de vender livros. E pode ser que os livros da dupla vendam como sucessos do iTunes. É menos pelo conteúdo das obras do que pelo sucesso popular de seus autores. Ou seja, Lobão e Barone poderiam se dedicar tanto a publicar livros como a vender cebolas, ou tomates, com suas marcas. Fariam sucesso de qualquer maneira.

Barone e Lobão me surpreenderam, embora negativamente. Cada um à sua maneira, mostram fragilidade e falta de formação. O fato de ser famosos credenciou-os a publicar suas obras. No entanto, não possuem pré-requisitos mínimos para lançar ensaios estéticos e historiográficos nem para se arvorar em intérpretes do Brasil. Barone é um historiador ruim. Lobão prega no vazio, o que o desautoriza como o autor controverso que gostaria de ser. Os dois produziram textos amadores. Agiram como fãs - logo eles que têm tantos fãs e não precisam passar para o lado de lá e muito menos cometer pecadilhos literários. Não se trata de menosprezar um e outro, e sim de reclamar da leviandade dos editores. Para usar o chavão, o leitor é que perde – o leitor desavisado, bem entendido. 

LAGiron

Papas são os novos Elvis

Conheço muitas pessoas que não creem em Deus, mas são devotas do papa. Até porque os papas aparecem debaixo dos seus narizes. Papas são visíveis, fungíveis e transferíveis. São gente como a gente. Mas como agirão os crentes na matéria papal caso surjam mais que um papa?  

A pergunta deixou se ser hipotética. Se tivesse sido divulgada anos atrás, a fotografia do encontro ocorrido no final de março entre os papas Francisco e Bento XVI no palácio de Castel Gandolfo teria o impacto de uma piada, ou uma alucinação. Os dois, um argentino e um alemão, trajados de branco, de solidéu, ajoelharam-se e rezaram juntos, em aparente harmonia na misericórdia. É como se a Terra contasse de repente com duas luas, ou dois sóis. Não posso nem devo duvidar dos últimos acontecimentos católicos nem dos repórteres do jornal L'Osservatore RomanoHabemus due papae. Um papa está operante, Francisco. Outro, Bento XVI, renunciou, tornou-se papa emérito e se diz em retiro espiritual. Tudo na santa paz. Não há como não acreditar.

No entanto, os vaticanólogos têm discutido severamente a iminência de um novo cisma no coração da igreja católica. Segundo observadores, Francisco governaria e Bento conspiraria. Seria a ressurreição de cizânias arcaicas, como o Grande Cisma que abalou o catolicismo entre 1378 e 1417 e dividiu a Igreja entre o papa de Roma, Urbano VI, e o Antipapa, de Avignon, Clemente VII. Por ordem do rei da França, Avignon foi sede papal por sete décadas, de 1309 e 1377. Mas os romanos pressionaram a cúria e conseguiram trazer de volta o líder à cidade eterna. Não sem conflitos. Muitos antipapas desafiaram papas, até que o Concílio de Constança (1414) depôs o antipapa João XXII e entronizou Gregório XII.  

Sacerdotes aparentemente pios se digladiaram na disputa do trono de Pedro. O temor de muitos estudiosos é que Bento XVI já tenha se transformado em uma espécie de antipapa, ainda que se mantenha à distância deste vasto e insano mundo de vaidades. O retiro em Castel Gandolfo está terminando, e ele deve ir embora do palácio. Há quem diga que irá para um mosteiro em Roma. E se o papa Ratzinger mudar-se para um lugarejo bávaro e lá fundar uma nova sede para a Cristandade? Sua cidade natal, a minúscula Marktl am Inn, na fronteira com a Áustria, se tornasse a nova Avignon? Não teria certamente o glamour da cidade francesa. Mas o prédio da catedral de Marktl pode ser ampliado. De qualquer forma, a cidade já virou um local de peregrinação. Quantos seguidores não arrebanharia o antipapa? O Deus de Marktl seria o mesmo que reina em Roma? -

É bom tomar cuidado porque transitamos agora pelo terreno movediço (ou pedregoso) da especulação. Tudo leva a crer que testemunhamos um instante único em que dois papas vivem em concórdia. De qualquer forma, a existência do duo papal – com a eleição de Francisco e a renúncia de Bento – derruba um mito e instaura um outro. Cai assim o dogma da infalibilidade papal para dar entrada ao da comutabilidade pontifícia. Se um papa pode ocupar o mesmo espaço que um outro, se um papa pode deixar de o ser e se um papa recém-empossado pode pedir à multidão da praça de São Pedro que reze por ele e preconizar a humildade e a pobreza, então qualquer um tem o direito de se tornar papa. A tendência é papas se reproduzirem e segmentarem ad infinitum

Não espanta que um famoso hotel de Las Vegas poderá já estar fechado para sediar uma convenção de papas. Os participantes, às centenas, vestirão batinas brancas, mitra, solidéu, mantos de púrpura e o anel do pescador. Eles competirão em popularidade com os fãs de Elvis Presley, que acorrem à cidade para celebrar a memória do Rei do Rock. A diferença do Congresso dos Papas para as convenções de Elvis é que os papas não são admiradores do papa, como os que se vestem de Elvis. Não ouvem os discos do papa Wojtyla, nem curtir os vídeos com as missas de Paulo VI. Os participantes se veem realmente como papas. Pensam investidos de uma autoridade sagrada, pregam fé, esperança e caridade. Cultivam, enfim, um projeto inovador de cristandade.   

Ao longo de sete dias da convenção, imagino que todos os papas acordem cedo e se reúnam na capela para entoar salmos. Depois de uma refeição que obrigatoriamente será frugal, confessam-se uns aos outros, apresentam seus sermões, ensaiam homilias e o discurso que simula improvisação a ser proferido diante da multidão pouco antes da bênção "Urbi et Orbi" que todo papa concede quando é anunciado. Dessa forma singela, valendo-se do princípio de comutabilidade, cada um se qualifica, à sua maneira, como sucessor de Pedro. Os participantes estão nivelados pelo alto, muito alto. No final, uma grande missa concluirá o evento, rezada pelos 100 papas que se destacaram no concurso de encíclicas. Os campeões ganharão uma passagem só de ida para Roma, com estadia gratuita nos Jardins do Vaticano. E assim anualmente. 

A Igreja Católica até pouco tempo atrás observava as obrigações hierárquicas. Estas devem cair com a afluência de papas de Las Vegas e outros cantos do mundo. O único senão será a proliferação indiscriminada de sumos-pontífices. Não chega a ser um problema sério, pois hoje está mais fácil ser pan-papista do que monoteísta. 


LAGiron

Marxista, aristocrata... e pop

No fim da vida, o historiador Eric Hobsbawm se perguntava como a cultura iria sobreviver na era digital. E estava esperançoso

Quando o historiador britânico Eric Hobsbawm morreu de pneumonia em 1º de outubro de 2012, aos 95 anos, em um hospital de Londres, consagrado e cercado por mulher e três filhos, não parecia em paz. Lúcido até o último suspiro, ele ainda fazia planos de livros. Estava preocupado, entre outras coisas, com o futuro da arte e da cultura no século XXI. Não se conformava com a decadência que as artes plásticas e a literatura experimentaram na era do consumo de massa e se dizia perplexo com a consolidação da internet. Ainda assim, esforçava-se em entender o que tinha acontecido com tudo o que havia aprendido a amar: o jazz, a ópera, os festivais literários, o futebol e o ideal de revolução preconizado pelos pensadores marxistas, os seus mestres.
Nas atividades acadêmica e literária, como autor e palestrante, Hobsbawm agiu como um revolucionário comunista saudoso da "alta cultura" burguesa surgida em Viena da associação entre mecenas judeus e burocratas mornarquistas durante o Império Habsburgo, derrubado em 1914. Foi um dos raros representantes da "era dos impérios" a ter atravessado o "breve século XX" e testemunhado o triunfo da sociedade da informação e dos tempos digitais que vivemos agora. Seria Hobsbawm uma contradição nos termos, como diria seu mestre, o filósofo alemão Karl Marx? Ou não passaria de um homem de personalidade complexa que viveu tempos conturbados?
A pequena história do indivíduo ajuda a responder às perguntas. Hobsbawm, de certo modo, foi o herdeiro de uma visão de mundo que o século XX destruiu. Nasceu em 1917 em Alexandria, quando o Egito fazia parte do Império Britânico, em uma família judia de classe média baixa. Sua língua materna foi o alemão. Cresceu em Viena, onde vivenciou o final da efervescência cultural que a capital do império Autro-Húngaro experimentou durante a Belle Époque. Formou-se em Berlim no auge do prestígio cultural da Alemanha pré-hitlerista. Emicrou para Londres quando Hitler subiu ao poder. Sob a proteção da monarquia britânica, consguiu ter sucesso tanto na carreira de militante stalinista como de professor universitário. E não sofreu censura quando renegou o "socialismo real" de Josef Stalin. Não sentiu remoros ao aplicar e desenvolver as premissas do método "marxiano", como ele dizia – enfatizando o valor a teoria, antes de ela ter degenerado em uma espécie de religião - de lidar com as transformações sociais, culturais e econômicas da humanidade.
No ambiente intelectualmente propício da vida universitária da Inglaterra depois da Setunda Guerra Mundial, Hobsbawm se realizou como historiador. Ganhou fama como o homem que encurtou o século XX. Isso antes mesmo de o século ter acabado oficialmente. Ele usou o atalho no livro Era dos extremos – o breve século XX (1914-1991), de 1994, – último volume de uma tetralogia formada pelos livros A era das revoluções (1789-1848), Era do capital (1848-1875) e A era dos impérios (1875-1914). Ali, afirmou que o século XX foi atropelado por duas guerras mundiais, a ascensão do fascismo e do comunismo e a consolidação do império americano à força do poderio militar e da imposição da sociedade de consumo de massa. Segundo Hobsbawm, esse século catastrófico durou apenas 75 anos, desmoronando com a queda do Muro de Berlim. Foi um século em que o presente foi tragado pelo peso passado e a sombra do futuro.
Na condição de historiador, e, de acordo com ele "historiadores são especialistas em passado", cometeu uma arbitrariedade. Como alguém pode decretar o fim de um século? Mesmo assim, o decreto se popularizou. Virou moda e foi acatado por muita gente que viu o ano 2000 passar como se já fosse o século seguinte - e fez de Hobsbawm algo que talvez odiasse ser: um historiador pop.
Na pele do marxista impenitente (acreditou até o fim da vida nas lições e profecias de Marx), fez história não só com fatos atuais, como antecipou os fatos em uma atitude a um só tempo messiânica e irônica. Foi num estado de espírito misto de pessimismo crítico e esperança no futuro que ele concluiu aquela que viria a ser a sua obra póstuma, Tempos fraturados – cultura e sociedade no século XX (Companhia das letras, 344 páginas, R$ 39,50; e-book: R$ 27,50), lançada em março no Reino Unido e nesta semana no Brasil. A coletânea de 22 textos, entre ensaios, conferências e artigos escritos entre 1964 e 2012 trata da relação entre a arte e a política no século XX e suas consequências para o novo milênio.
Hobsbawm nunca trabalhou como crítico de arte. Mas tratou do assunto de modo esparso, sem frande repercussão. Isso até a virada do milênio, quando passou a se dedicar com mais afinco às questões estéticas a partir do século XXI. É desse período o ensaio em Pessoas extraordinárias: resistência, rebelião e jazz, de 2005, no qual biografou heróis do jazz como a cantora Billie Holiday e o maestro Duke Ellington como indivíduos que alteraram a história humana com a força de seus talentos, e ajudaram a construir a cultura americana, a cultura de massa mais criativa do século XX.
Em Tempos fraturados, ele amplia o escopo da análise para examinar o destino da música erudita, das artes visuais, arquitetura, literatura e cinema. Seu argumento é de que a cultura burguesa mantida por uma elite progressista, que defendia valores como o progresso, a ética, a arte e a edução, acabou com o início da Primeira Guerra, em 1914. Essa cultura, segundo ele, não resisitiu à evolução da ciência e da tecnologia, "que transformou antigas maneiras de ganhar a vida antes de destruí-las", à sociedade de consumo de massa impulsionada pela pujuança econômica ocidental e à inclusão das massas na cena política . A segunda metade do séulo XX viu nascer uma "cultura do homem comum". Esta culmina com a criação do cinema como arte propagadora da hegemonia da cultura americana, com a sua critavidade e, ao mesmo tempo De certo modo, era o herdeiro de uma visão de mundo que o século XX destruiu, do seu poder de corrmper. Em seguida, a televisão e os computadores ajudam a gerar, pela primeira vez na humanidade, um fluxo incessante e onipresente de som, imagem, palavra memória e símbolos.
A arte como parâmetro de valores do belo e do ruim dá lugar à pura diversão. Sai de cena a crítica demolidora do austríaco Karl Krauss – que ele aprendeu a ler ainda menino - para ceder espaço ao caubói Tom Mix. O intelectual público nutrido no engajamento político das guerras do século XX é substituído pelo astro de rock. "Numa sociedade de incessante entretenimento de massa, os ativistas agora acham os intelectuais menos úteis como fonte de inpriação da causa do que o rogueio e astros de cinema mundilamente famosos", afirma no ensaio "Os intelectuais,: papel, função e paradoxo", de 2011. "Os filósofos já não têm condições de competir com Bono ou Eno, a não ser que se reclassifcquem como essa nova figura do nnovo mundo do espetáculo midiático – a "celebridade." E diz que a situação só vai mudar quando o "ruído universal de autoexpressão do Facebook e os ideais igualitários da internet produzam seu pleno efeito pollítico". Viveremos, diz, um "dilúvio criativo que inunda o globo de imagens, sons e palavras", como qual não ainda não sabemos lidar, mas "que que quase certamente se tornará incontrolável tanto no espaço como no ciberespaço".
Mesmo temeroso com o futuro de um tipo de cultura que o formou, o revolucionário saudoso, marxista, aristocrático, profeta e ao mesmo tempo celebridade pop morreu torcendo pelas mudanças da história – que nunca deixaram de ocorrer.

LAGiron

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O mash-up de luxo de P.D. James



Phyllis Dorothy James White brilhou na literatura de suspense desde sua estreia com o romance A chantagista (Cover her face, de 1962). Nele, apresentava seu personagem mais famoso, Adam Dalgliesh, misto e poeta e detetive. Os 18 romances que se seguiram até 2008 repetiram a fórmula. O segredo da arte de P.D. James foi criar um coquetel de crueldade e detalhismo em lidar com enigmas criminais, competência que ela adquiriu nos anos 40 e 50, quando ela trabalhou como perita criminal no Ministério do Interior britânico. Nos anos 80, ganhou o apelido de “Baronesa do Crime”, até porque recebeu o título de baronesa James de Holland Park, título que recebeu da rainha Elizabeth II em 1983. “Fiquei feliz com a honraria, sobretudo porque sou baronesa do parque que fica diante do meu apartamento em Londres”, diz P.D. James a Época. “Meu ‘feudo’ não passa de uma belíssima área pública.”
No entanto, lady James, como gosta de ser chamada, parece não se contentar em ser reconhecida apenas como a mestra contemporânea das histórias policiais. Aos 92 anos, está sacudindo novamente o gênero de mistério com o romance Morte em Pemberley (Companhia das Letras, 344 Páginas, R$ 44, tradução de Sonia Moreira). O livro foi publicado em 2011 em língua em inglesa e obteve enorme repercussão da crítica e público.
Para criar o impacto que planejava, P.D. James recorreu a um modismo literário que tem entusiasmado há quatro anos tanto escritores estreantes como jovens leitores: o mash-up, aquele tipo de narrativa que se apossa de obras clássicas e personagens conhecidas e assim criar situações inusitadas, em geral fantásticas e coalhadas de monstros, alinenígenas e vampiros. O termo (“mistura”, em inglês) nasceu entre os DJs, que editavam várias músicas conhecidas em uma gravação. Jovens autores incorporam o termo para definir seus livros. Embora o pastiche e a paródia sejam recorrentes na história literária, o divulgador da nova onda foi o escritor americano Seth Grahame-Smith. É dele o best-seller Orgulho, preconceito e vampiros (2009). Smith disse que escreveu um enredo de terror, tendo o cuidado de manter 40% da obra em que se baseou (ou vampirizou), o romance Orgulho e preconceito, de Jane Austen (1775-1817). Na trilha dele, poucas obras escaparam do pastiche. Além de autores de obras de entretenimento, romancistas experimentais com pretensões literárias adotaram o mash-up, cortando, mantendo e até ampliando seus livros-alvos.
P.D. James parte da mesma operação, embora sem tocar em uma linha da obra original. Em Morte em Pemberley, baseou-se no alvo favorito da nova geração - Orgulho e preconceito - para contar a investigação de um assassinato. Mas, diferentemente de Graham-Smith e colegas, ela  não invadiu nem corrompeu o livro. Preferiu construir a trama a partir da ambientação e da galeria de personagens de Jane Austen. Jane Austen é a autora favorita de P.D. James. Em homenagem a ela, batizou sua segunda filha como nome de Jane. Publicado em janeiro de 1803, Orgulho e preconceito é um modelo de estilo conciso e de observação irônica de hábitos rurais da Inglaterra do século XVII.  O sucesso só fez aumentar ao longo de 200 anos, e o romance tornou-se leitura obrigatória em círculos de leitores no mundo inteiro.
Com a lupa nesse público, P.D. James criou o “segundo volume” da obra. “Peço desculpa ao espírito de Jane Austen por envolver sua estimada Elizabeth a trama da investigação de um assassinato”, afirma P.D. James. “Se ela quisesse escrever sobre assuntos odiosos, teria escrito melhor essa história.” P.D. James encontrou no cenário bucólico de Orgulho e preconceito o ambiente perfeito para um crime. Morte em Pemberley se passa no outono de 1803, quando Elizabeth e Darcy, já pais de dois meninos, completam seis anos de um casamento perfeito. Estão programando uma festa na mansão de Pemberley, quando um crime acontece no bosque da propriedade. O capitão Denny, amigo da família, é encontrado morto. Os suspeitos são a rebelde Lydia, uma das três irmãs de Elizabeth, e seu marido, o plebeu Wickham, amigo de infância de Darcy e com quem Elizabeth pensou em namorar antes de conquistar Darcy. A investigação envolve troca de papéis dos “detetives”, além do acúmulo de novas mortes e contradições. Será que a ordem será restabelecida em Pemberley?
Alguns críticos se irritaram com o mistério, e afirmaram que  P.D. James cometeu um ato de traição contra a alta literatura, envolvendo-se no mash-up. Para outros especialistas, ela mostrou vigor para inovar em um gênero tudo por muitos como desgastado pelos estereótipos. De qualquer forma, a diferença de P.D. James tanto em relação aos autores de mash-up como a boa parte dos escritores de mistério é algo simples: a qualidade de seu texto ultrapassa o gênero com que ela escolheu escrever. “Ser popular não significa ser superficial”, afirma o professor de Litetarua Felipe Pena. “A escrita simples é a laboriosa tradução da complexidade. Escrever fácil é muito difícil”.
  

Cristo segundo Coetzee

Está para surgir um escritor capaz de farejar oportunidade no sucesso da série erótica de E.L. James e escrever a trilogia 50 tons de Cristo. Jesus comparece como personagem de romances nas mais variadas formas, situações e finalidades, como protagonista, anti-herói, alvo de sátira ou referência distante. Não parece existir um método confiável para mensurar qual o coeficiente da presença de Cristo em determinada obra aumenta suas vendas. Mas a simples menção do nome de Jesus de Nazaré ajuda um livro a fazer barulho. Sua presença tanto pode gerar sucesso de crítica ou de público como suscitar um escândalo, que também serve como chamariz.
No terreno de exploração e questionamento da divindade, a repercussão tente a aumentar se autores consagrados como o grego Nikos Kazantzakis e o inglês Philip Pullmann ousam pronunciar o santo nome do Filho de Deus em benefício da arte da narrativa (leia o quadro na página XX). O fato se repete agora, com o lançamento mundial de A infância de Cristo (Companhia das Letras, 304 páginas, R$ 44, tradução de José Rubens Siqueira), o 13° romance em 40 anos de carreira do sul-africano John Maxwell Coetzee. O livro é uma parábola dos primeiros cinco anos de um garoto que pode ser Jesus. No entanto, em vez do berço original da Galileia, Cristo surge no mundo contemporâneo materialista e desprovido de crenças. É o menino certo no tempo e no lugar errados. Algo como se Jesus viesse hoje. Faria alguma diferença?
O tema soa ambicioso e apropriado ao autor, vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2003. Não surpreende, portanto, que a repercussão do romance tenha sido grande quando saiu romance saiu no início de março em língua inglesa – pouco antes da edição de outro sucesso, o volume Here and now, com as cartas trocadas entre ele e o colega Paul Auster entre 2008 e 2011. A infância de Jesus sai no Brasil nesta semana, para marcar a segunda visita de Coetzee ao Brasil – ele havia participado da Feira Literária Internacional (Flip) em 2007. Coetzee dará palestras em Curitiba na segunda-feira, dia 15, e em Porto Alegre na quinta-feira, dia 18. Seu tema será censura. Mas poderá dedicar algum tempo para discorrer sobre sua obra como ensaísta e ficcionista e seus últimos livros. Coetzee pertence à categoria de autores que praticam um dos gêneros literários de maior efeito: a reclusão. Raramente dá entrevistas e não tece comentários na imprensa. "Não gosto de abrir a boca diante de um jornalista", escreve a Paul Auster. "A conversa não flui e fica desinteressante." O resultado óbvio da aversão à imprensa é que todo mundo passa a ler, comentar e divulgar o livro.
Coetzee, porém, vai além do marketing do gênio inacessível. Ele se supera em gêneros mais difíceis, como o romance experimental e o ensaio político. "Ler livros de ficção saiu de moda", escreve a Auster. "Mesmo consciente disso, sou um profissional e preciso continar a fazer romances." Ele consegue uma façanha rara: conjugar vida e escrita. Nasceu há 73 anos na Cidade do Cabo. Costuma viajar ao lado da mulher, a professora Dorothy Driver. Além de conhecer pontos turísticos, dá palestras e visita arquivos e bibliotecas nos lugares em que visita. É um pesquisador incansável. Mudou-se em 2002 para Adelaide, Austrália, onde dá aulas de Literatura na universidade local. Além do Nobel, ganhou dois prêmios Mann Booker, pelos romances Vida e época de Michael K (1983), em que retoma a atmosfera claustrofóbica e absurda dos livros de Franz Kafka, seu autor favorito, e Desonra (1999), uma sátira à política universitária sul-africana durante o regime do apartheid na história de um professor que se envolve com uma aluna – e é difamado por ela. Coetzee embaralha ficção, ensaio, notícias e citações literárias. Escreveu um romance sobre Dostoiévski – o mestre de Petersburgo (1994) – e fez autoficcção em livros como Juventude (1997) e Cenas da vida da província (2011).
Em A infância de Jesus, ele se arrisca pela primeira vez na parábola – um tipo de narrativa alegórica que envolve lições de moral. E se sai bem, pois relativiza o conteúdo moral do texto com ironia. O especialista literário Benjamin Markovits, do jornal inglês The Guardian, diz que as referências a Jesus são distantes. O que vale em Coetzee é a "habilidade mágica de continuar a história". O livro marca a volta de Coetzee à verve crítica, segundo o o crítico Benjamin Lytal, da revista digital Newsweek. "Ele joga com o que poderia acontecer se uma criança semelhante a Cristo aparecesse hoje no mundo", afirma. "Um mundo descrente."
Coetzee narra a história de David que, aos 5 anos, desembarca na cidade de Novilla acompanhado por um homem de meia-idade, Simón. Ambos chegam com uma missão: encontrar a mãe do menino. É ele quem chama o menino de David, porque não sabe seu nome. Novilla é um lugar estranho, kafkiano: as pessoas parecem bondosas, mas não fazem nada pelo próximo. Defendem direitos civis, mas os ricos mantêm seus privilégios. Novilla resume a civilização atual. David diz coisas sábias que parecem absurdas aos adultos. Convida-os a uma vida nova, baseada na igualdade e no amor, mas ninguém o leva a sério.
Coetzee fala de Jesus de um modo excêntrico. Ele se pergunta: Cristo, em toda sua inocência, bondade e santidade faria efeito no mundo de hoje? A resposta é não. Por isso, aqueles que desejam buscar a palavra de Cristo no livro podem se decepcionar. O Cristo de Coetzee é um personagem enigmático, fadado ao fracasso, repleto de nuances e subentendidos - e isso o torna mais emocionante. Coetzee poderia ter intitulado seu livro "500 meios-tons de Cristo". Mas não precisa disso.

LAGiron

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O ser e a bola


Como o futebol pode se apoderar da alma do torcedor – e moldar sua personalidade

 

            Um amigo tenta me consolar do rebaixamento do Palmeiras à segunda divisão: "Ainda bem que você tem outros times para compensar!" É verdade. Como muitos meninos criados no interior do Brasil, adotei um time para cada Estado da federação. Assim, já que minha cidade não contava com possíveis campeões (havia um revezamento de troféus entre os dois times de Porto Alegre), eu mantinha meu interesse à distância pelo futebol. 

                Em São Paulo, calhou de meu time ser somente o Palmeiras, um dos símbolos da imigração italiana no Brasil. Mas tenho times espalhados pelo Brasil e pelo mundo, não vou citar todos aqui. Fico apenas com o Rio de Janeiro. Houve um tempo em que adotei quase todas as equipes cariocas, já que eu promovia campeonatos de botão com os amigos na condição de "treinador" dos times cariocas disponíveis. Em relação ao campeonato do Rio, portanto, tornei-me ecumênico, pois gosto de todos. Consigo ser Vasco, Fluminense e Flamengo ao mesmo tempo, bem como Botafogo, Bangu e América.

                O que eu quero dizer é que possuo uma espécie de defeito de personalidade porque não me prendo visceralmente a nenhum clube, embora torça por alguns. Em futebol, meu coração é leviano. Eu colecionava figurinhas de todos os times. Sou de um tempo em que amigos e suas famílias iam aos estádios com camisas de times diferentes, torcendo no mesmo espaço por times rivais. E ninguém se matava ou matava os outros por isso. Com o tempo, os torcedores foram forçados a se transformar em fanáticos. Enquanto isso, cresci e me interessei por outros assuntos além do futebol. Mas ele permaneceu, como o menino permanece no homem.

                Hoje, torcer consiste em uma ação bem diferente daquela de minha infância. Torcer é "ser". Assim, "ser" palmeirense em São Paulo, sobretudo nos últimos meses, significa apreciar as grandes tragédias, purgar os pecados nas chamas da derrota, rastejar em tempos difíceis e sair purificado ao final. No domingo passado, a assistir pela televisão a mais uma derrocada palmeirense, preferi ouvir uma ópera completa, O crepúsculo dos Deuses, de Richard Wagner, na versão "mozartiana" de Karl Böhm. Ao mesmo tempo que terminavam os últimos acordes - que marcam o fim dos deuses e o nascimento da humanidade – ouvi ao longe os fogos da torcida adversária, locupletando-se com a derrota alheia. Não atendi ao telefonema de meu cunhado santista, para não ouvir zombarias. Depois, no Twitter, algum gaiato postou: "Palmeirenses, tranquem as portas e fiquem em casa porque vamos festejar e arrebentar quem usar camisa verde". Quase fui obrigado a me sentir humilhado, ofendido e acuado. 

                A razão, no entanto, veio me socorrer. Em vez de sair para berrar ofensa ou me mortificar, passei a refletir sobre como o futebol no Brasil não apenas faz parte da vida das pessoas, como sobretudo  constitui o sujeito, para roubar um termo de psicanálise. Assim como Jean-Paul Sartre diria que o ser precede a essência, eu me arrisco a dizer que no Brasil e em outros países a bola precede o homem. O futebol, em especial o time, fornece as características do que constrói o sujeito. E, numa tosca paráfrase a Thomas Hobbes, o homem é o time do homem.

                A tradição de glórias e derrotas de uma equipe e futebol deve necessariamente pesar sobre os ombros do torcedor. Ser palmeirense é assumir a pungência da tragédia. O palmeirense é o novo sofredor diante da força do destino (é um título de ópera aliás). Ocupa o lugar deixado há muito tempo pelos coritintianos. Da mesma forma, ser corintiano hoje impõe ao ser do torcedor uma certa dose de grandiosa insanidade. Quando a Fiel grita que é um bando de loucos, não é só força de expressão. Trata-se da manifestação de uma crença arraigada na essência de cada um dos integrantes do grupo. Pertencer a uma torcida implica compartilhar cores, valores, origens, amizades, amores e idiossincrasias. É odiar os mesmos inimigos. É matar e morrer por esses "ideais". Daí o surgimento das agressivas torcidas organizadas, que também podem reencarnar no Carnaval, com suas facções fantasiadas de escolas de samba.

                Os reflexos da ontologia da bola acontecem até na vida amorosa. A comédia O casamento de Romeu e Julieta, de 2004, transforma a rivalidade entre as famílias Capuleto e Montecchio, de Verona, para as torcidas corintiana e palmeirense. Um corintiano pede uma palmeirense em casamento, mas precisa se disfarçar de verde para agradar ao sogro, dirigente do Palestra Itália. Conheço uma situação parecida: um casal de namorados, ela palmeirense, ele corintiano, que muitas vezes têm problemas de relacionamento por causa do fanatismo de um e outra. Uma coisa será impossível, infelizmente: vê-los em um setor de qualquer estádio, juntos, namorando, cada um com sua camisa, como teria sido comum em meados do século passado. Torcidas e amor, torcidas e diversidade são termos incompatíveis. As torcidas organizadas – e mesmo as não - se transformam em falanges de uma guerra perpétua e inexplicável. Pertencer a um time significa satanizar aqueles que não pertencem à falange.

                A que se deve tal situação? Talvez à degeneração dos valores humanos e culturais, fenômeno que se repete e se torna mais dramático nos estádios de futebol.  Assim, o fanatismo clubístico é tanto um fator de união como de cizânia social. Sigmud Freud e Elias Canetti ensinaram que a psicologia das massas é irracional e causadora de tremendos conflitos. O fanatismo não tem outro sentido que estimular o ódio e o ressentimento ao "outro". Esse tipo de mobilização em torno de uma ideia, ainda que clubística, já mostrou ser deletério. É algo próximo ao fascismo, e as torcidas organizadas são as atacantes do processo.  Como ensinou o Filósofo das Quatro Linhas: "Futebol é futebol – e vice-versa". Ou, pelo menos, deveria ser assim. O problema é que ele pode deixar de ser só futebol para transbordar para outras áreas. Feito um regime totalitário, por exemplo, o futebol se apodera do sujeito. O esporte atua como um invasor de almas. Sob a capa de cultura, ele vampiriza a vontade e anula a iniciativa do torcedor.

                Você, palmeirense, já pensou em não ser palmeirense por um dia, por uma semana? (neste momento, seria aconselhável). E você, são—paulino, santista, gremista e outros, que tal passar umas horas sem encarnar o time, sem pensar nele? Eu, que me cultivei na admiração ecumênica por vários times, acho isso natural e saudável. Não consigo entender a mentalidade de "onda" com que alguns indivíduos cultivam a própria personalidade. Afinal, futebol não é tão importante assim para compor a maneira de viver, pensar e se comportar de qualquer indivíduo. O ser precede a bola - e é maior que ela.


LAGiron

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Quem é Mick Jagger mesmo?

Uma biografia mostra que o roqueiro transgressor não passou de uma criação de palco – e que ele é um modelo de ambição, disciplina – e gosto por sexo

Quem vê hoje os shows de Mick Jagger pode não perceber que a figura  salvagem do mito do rock dos anos 60 não passa de uma construção de palco. Por trás do desempenho frenético do vocalista da banda inglesa The Rolling Stones, com seu ar de adolescente malcriado, oculta-se um senhor de quase 70 anos, dado a atitudes esnobes e hábitos aristocráticos, amante do luxo e de sexo, pai severo de sete filhos e avô de duas crianças, acostumado a manter um código de etiqueta escrito na era vitoriana para ser aplicado por sua criadagem nas suas diversas mansões e palácios espalhados pelo mundo.

Para decifrar o enigma das duas imagens conflitantes de Jagger e m revelar a sua face humana e íntima das máscaras que ele criou para si próprio, o escritor inglês Philip Norman levou três anos escrevendo a biografia Mick Jagger (Companhia das Letras, 624 páginas, R$ 49,50 ). "Na verdade, passei minha vida inteira escrevendo sobre duas bandas dos anos 60 que formam uma única saga: Beatles e Rolling Stones", afirma Norman à Época. Aos 69 anos, ele foi jornalista de música e conheceu esses artistas no início de suas carreiras. Escreveu um livro sobre a história dos Beatles, em 1981, e a consagrada biografia John Lennon: a vida, em 2009. "Mick merecia uma biografia por ser a figura central da contracultura que explodiu em Londres em meados dos anos 60", diz. "A 'swinging London' que rompeu a crosta vitoriana da cidade não teria sido a mesma sem o talento de Mick de fazer de si próprio o símbolo maior daquele tempo, uma espécie de Tirano do Cool, de lançador de modas e de padrões de gosto."

Norman esperou por uma efeméride, os 50 anos da estreia da banda, para publicar a biografia, feita a partir de pesquisas e entrevistas. O paradoxo saltitante Mick Jagger e banda estarão de volta às turnês em novembro, quando os Stones iniciam a turnê 50 and counting, para comemorar o cinquentenário da banda. Eles lançam a coletânea Grrr!, com sucessos da carreira.  A comemoração está atrasada em relação à estreia dos Stones, em 16 de julho de 1962. Houve muita discussão entre os quatro membros da banda até chegar a um projeto viável. Eles formam a empresa de rock mais lucrativa do mundo e encaram a banda como tal.  De 1999 até 2011, os Stones ganharam 2 bilhões de dólares. Jagger deu a última palavra. Alguém esperaria menos do "Tirano do Cool"?

"Os Stones são um fenômeno de longevidade graças Mick,", diz Norman. "No início, era um conjunto instável, que contou com mortes e a saída de dois integrantes, além do envolvimento com drogas e fugas do fisco. Não tinha nada para se manter. Foi o gênio de organizador de Mick que segurou os Rolling Stones ao longo dos anos. Além de seu talento artístico." Segundo Norman, o problema de lidar com uma personagem pública como Mick é que ninguém sabe quem ele é, apesar de pensar que sabe: "Ele não ostenta duas faces, mas um número quase infinito delas. São tantas as camadas que ele justapôs ao próprio rosto que nos perdemos na tentativa de desmascará-lo. Ele conseguiu manter seu verdadeiro eu, bem mais complexo e interessante que suas máscaras".

A personalidade de Mick resultou de sua formação tradicional. Ele contraria todos os estereótipos das celebridades da cultura pop, que construíram seus mitos a partir da pobreza, da rejeição e da privação. Michael Philip Jagger nasceu em uma família convencional de classe média, de pais devotados. A mãe, Eva,  uma esteticista australiana, despertou nele o gosto pela aparência. O pai, Joe, professor de educação física, orientou seus dois filhos, Mick e o caçula Chris, a cultivar o corpo. Mick contou com o apoio deles para seguir sua carreira quando passou na prestigiosa London School of Economics. E não tiveram como reclamar quando o garoto trancou a matrícula, já que ele era capaz de demonstrar que se tornaria milionário, no improvável papel de cantor de uma banda de blues.

Quando o estrelato chegou como a consequência de um silogismo lógico, Mick sobreviveu às tentações de seu tempo: as drogas pesadas e a militância política. Enquanto sua namorada, Marianne Faithfull, entregava-se à heroína e seus companheiros de banda Keith Richards e Brian Jones ao LSD, ele provava sem se jogar nelas. "Mick não gostava de fato de drogas", diz Norman. "E não se viciou." Quando todos os artistas daquele tempo participavam de passeatas pacifstas, Mick assistia a tudo de óculos escuros... e de longe.

Seu fraco sempre foi sexo. Hoje ele seria chamado de doente, mas os seus dois casamentos e centenas de casos com homens e mulheres parecem ter lhe servido como elixir da juventude.  "A carreira sexual dele é tão espantosa quanto a musical", afirma Norman. "Ele se habituou a viver como um adolescente que não precisa tomar providências chatas da vida. E se acostumou a tratar as suas mulheres como lixo, até porque temia que muitas delas lhe roubassem o dinheiro. Mesmo assim, mostrou ser um pai a um só tempo disciplinador  e divertido. Seus filhos o adoram."

Entre as descobertas de Norman, destacam-se três. A primeira é que Mick e Keith foram injustiçado pela polícia britânica. Além de serem acusados em 1966 de porte de drogas por meio de uma droga plantada por um tabloide, a estada deles em duas prisões diferente, ambas reconhecidas pelas condições terríveis, foi traumatizante. "Eles sofreram violência lá dentro", diz Norman. A segunda diz respeito á onda de violência durante o show do autódromo de Altamont, em 1969. Mick foi culpado de proteger o bando  Hell's Angels em seus atos de violência, que culminaram no assassinato de um jovem negro  por um integrante do bando enquanto Mick cantava. "Mas ele se portou com coragem, enfrentou os Hell's Angels e tentou conter a violência naquela noite", afirma Norman. Por fim, o papel do produtor Andrew Oldham na definição da identidade dos Stones também ganha nova luz. Foi ele que ele criou o clima de rivalidade e oposição entre os Stones e os Beatles. E foi fundamental para ajudar Mick a forjar a sua persona indomável.

Lançada em outubro no Reino Unido, a biografia obteve boas resenhas, embora alguns críticos tenham dizo que Norman fez um retrato positivo demais de Jagger. "Ele não se manifestou", diz Norman. "Mick se comporta como um membro da família real britânica. Nunca responde a pedidos de entrevistas, não se manifesta e finge não se lembrar de nada do passado. Como disse o baterista dos Stones Charlie Watts, Mick não pensa no presente e no passado. Só no futuro. Ele continua o mesmo.

LAGiron

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Abaixo a dublagem



Ela está matando as legendas e a possibilidade de leitura
LUÍS ANTÔNIO GIRON
Basta agora mesmo ligar a televisão ou tentar assistir a um filme em um multiplex qualquer para verificar o óbvio: a maior parte dos filmes em cartaz é dublada. Não se trata de desenhos para crianças. É filme adulto mesmo. Foi o que aconteceu com um casal de amigos no último fim de semana em Osasco. Ao procurar a versão legendada do filme Homens de preto 3, percebeu que só tinha uma opção de horário, e ele já havia passado. Eis aí um novo inédito. Quem quiser hoje ver um filme na versão original terá de achá-lo no circuito de arte ou apertar a tecla SAP da TV. E se resignar em ser considerado parte de uma minoria metida a besta. O novo fenômeno de consumo cultural demonstra que a regressão da leitura se dissemina trágica e velozmente no Brasil. O fim das legendas colabora com a perda da capacidade de entender um texto por parte do grande público.
As razões são de mercado; portanto, insofismáveis. Os estúdios e distribuidoras chegaram à constatação de que as audiências brasileiras estão ficando mais parecidas com as dos Estados Unidos e Europa, preferindo as versões dubladas às legendadas. Em reportagem publicada em ÉPOCA, intitulada A dublagem venceu as legendas, os especialistas concluíram que a plateia tem horror a ler uma média de 30 páginas de texto enquanto vê um filme de ação como Vingadores. Inimaginável encarar um filme francês como Um verão escaldante, de Philippe Garrel, que, só de legenda, corresponde a quase 100 páginas de livro – fora o que não é dito, o que fica nas entrelinhas. Ler é chato, especialmente o que não está escrito (por isso tanta gente odeia Machado de Assis e Samuel Beckett). Ver um filme não pode ser chato, nada pode ser oculto do espectador, salvo um mistério de cada vez, uma virada final para acompanhar o gole de refrigerante. Logo, a solução encontrada foi eliminar o desconforto da vida dos consumidores, e dublar tudo o que for possível, em escala industrial. Cada vez mais seremos forçados a seguir a maioria preguiçosa e emergente do novo Brasil, onde o analfabetismo funcional tornou-se um escândalo tamanho que o governo deveria lançar uma campanha de vacinação contra a ignorância. Mas aqui tudo regride, até mesmo características que pareciam mais evoluídas do que em países de primeiro mundo, como a antiga preferência nacional de ver filmes legendados.
Sinto asco de ir a um shopping center de luxo e observar que ali o público seleto só cobiça pipoca, soda e besteiras dubladas. Mais nojo me dá perceber que não há outra opção. Quem quer legenda que leve um DVD para casa, ou – no caso de São Paulo – vá à Reserva Cultural, um dos raros espaços de exibição de filmes que projeta filmes de arte com som original.
É curioso como está acontecendo uma quebra de hábito centenária no Brasil. Desde os primeiros filmes mudos apresentados em território nacional, nos anos 1900, o público se acostumou a acompanhar a trama com legendas. Com o cinema falado, a prática continuou, mesmo que em outros países isso tenha se alterado. Ouvi muitas histórias de pessoas que aprenderam idiomas estrangeiros apenas assistindo a filmes legendados, ouvindo e lendo ao mesmo tempo. E escutar a voz original dos atores e os sons do ambiente em que o filme foi rodado é uma experiência sensorial única. A combinação de som e legenda é pedagógica. Ensina que assistir a um filme implica um ato de leitura e, em seguida, interpretação.  
Vou cometer um truísmo: ver é ler, e conhecer. Daí as versões dubladas não servirem senão às plateias limítrofes – e aos deficientes visuais, naturalmente. Por isso, não acho que os dubladores devam ser banidos. Ao contrário, o serviço deles é útil e, não raro, artístico. Muitos desenhos animados da Disney ficaram melhores na versão brasileira, mas talvez isso seja menos uma afirmação racional que nostalgia. Atualmente, os dubladores gozam de status parecido com o dos astros que dublam. O público de multiplex consegue reconhecer nas ruas o Brad Pitt, a Angelina Jolie e o Justin Bieber brasileiros. É inútil dizer que os dubladores são coadjuvantes, papagaios da manutenção de um idioma nacional, como o foram os radioatores do século passado. Eles deveriam permanecer à sombra das imagens em movimento, mas hoje se sobrepõem a elas e adquirem uma glória a que não fazem jus. Eles andam cada vez mais criativos e estridentes em suas “interpretações” das falas originais. São em sua maioria cariocas, o que provoca um gostoso estranhamento junto ao público que está além do Leblon. Por que os dubladores cariocas têm o direito de ditar o padrão do idioma nacional falado se o Brasil compreende tantos e tão variados idioletos, pronúncias e cantos? Não deve ter lógica em nada disso. Seria preciso simplesmente refrear o ímpeto dos dubladores dos dois cantos do país em que eles atuam, Rio e São Paulo. Mas o sindicato intervém em benefício da formatação do imaginário.
A moda da dublagem deve ser seguida pela dos audiolivros. Acontece também na Alemanha e nos Estados Unidos o público gostar mais de ouvir história do que lê-las. Daqui a pouco, as grandes cadeias de livrarias – ou o que restar delas, com a concorrência da internet - estarão lotadas de versões sonoras acariocadas e paulistanas de livros os mais cretinos possíveis. Claro que há utilidade nelas. Mas dublagem de livros, como filmes, não substitui a experiência original da leitura. Daqui a pouco será obrigatória a dublagem de óperas (e isso acontece em Londres e Budapeste, por exemplo) e até de concertos. Onde iremos parar? Em lugar algum. Trata-se da convicção dos povos, e contra ela não há nada a fazer. Só resta lutar pelo mínimo de qualidade nos produtos de artes e espetáculos.
Não me confundam com um elitista. Também não quero ganhar popularidade fazendo o gênero bom samaritano e citar os deficientes auditivos, como mencionei os visuais, que precisam das legendas, e que agora estão sendo excluídos de forma injusta e estúpida. Estou falando do público tradicional, comum, que gosta de cultura e de ouvir o som original dos filmes e das séries. Essa parcela antes significativa se reduziu a uma fração irrelevante do consumidor de cinema e televisão. Se agora nós, surdos e cultos, formamos uma patética minoria, precisamos nos juntar sem mágoa para conter a marcha ré das multidões nos teatros que ruidosamente mastigam pipoca, arrotam e manifestam ódio a tudo o que é belo. E correr o risco de linchamento ao dizer: gente, que tal ler de vez em quando uma legendinha que seja?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sou mais Twitter do que Face



Com a polarização das redes sociais, é preciso optar entre um e outro... ou não
LUÍS ANTÔNIO GIRON

A batalha final entre as redes sociais se aproxima feito epílogo de uma franquia de cinema. As redes mais fracas foram eliminados em escaramuças ocorridas nos últimos dois anos. Orkut, MySpace e outras perderam seus membros e, por conseguinte, a guerra. Na Internet, briga-se não por territórios, mas por exércitos, porque eles constituem a maior riqueza. Exércitos que lutam entre si por mais e mais tropas: talvez os conflitos do passado não tenham sido nada além que isto, a sanha de dominar pessoas. Só que agora tudo acontece no campo aparentemente etéreo da guerra mundial virtual. Nesta altura da saga das redes, os vencedores são o Facebook (ou Face, como dizem os brasileiros em bom português) e o Twitter. O serviço de rede social de Mark Zuckerberg disputa com o microblog de Jack Dorsey a hegemonia de nossas mentes e almas. Tornou-se quase uma guerra de trincheiras. De que lado você está?
A pergunta pode parecer ociosa se consideramos que muitos usuários de uma rede fazem parte da outra. No entanto, observo que uma parcela significativa da turma que usa tanto Twitter como Facebook prefere um serviço ao outro. Existe uma divisão mental e de tipo de usuário. Na verdade, são duas tribos bem distintas, que possuem características e visões de mundo que vou tentar descrever e analisar mais adiante. Antes, vou abordar a história e o estatuto dos dois serviços e identificar seus detratores.
Já disseram que nunca se sabe aonde vai dar uma invenção, porque ela depende do uso que as pessoas fazem dela. Ninguém imaginaria, oito anos atrás, que um site criado para juntar estudantes da universidade Harvard, como o Facebook, chegaria aos atuais 900 milhões de usuários e revelaria às pessoas a dimensão e a qualidade de seus relacionamentos. Ou que um microblog de San Francisco que não se levava a sério em 2006, a começar pelo nome – na definição do cofundador Jack Dorsey, Twitter significa a um só tempo gorjeio de pássaro e “uma manifestação breve de informação inconsequente” – atingiria 500 milhões de membros, entre eles muitos cidadãos inteligentes capazes de expressar visões de mundo e sistemas filosóficos inteiros nos limites dos 140 caracteres impostos por seus donos. Cada um a sua maneira, Facebook e Twitter colaboraram para alterar a história e a forma como lidamos com outras pessoas e com a própria realidade. Por meio deles, surgiram movimentos sociais, rebeliões e focos de resistência democrática, bem como atentados terroristas.
Mas há quem reduza a função política dos dois. O escritor americano Jonathan Franzen me disse em entrevista que duvida que o Twitter foi um fator determinante nos protestos do Irã e do Egito. “O papel das redes sociais em atuar efetivamente no mundo concreto está sendo superestimado”, disse Franzen. “A solução dos problemas das pessoas não está no mundo digital, mas no mundo concreto.” Franzen me disse que jamais irá entrar no Facebook e no Twitter.
Entendo o virgem de internet. É aquele sujeito que acredita que pode manter a reputação simplesmente por se recusar a participar do lindo mundo novo das redes sociais. Eu próprio escrevi tempos atrás uma refutação ao Facebook, e anunciei que ia sair do serviço de Zuck, mas acabei desistindo por pressão social. Família e amigos me forçaram a me emaranhar de novo na teia e, pior que isso, a interagir virtualmente com eles. E acabei imitando o virgem de 40 anos daquela comédia com o Steve Carell: quando, virgem de 50 anos, caí em tentação, e me lambuzei como nunca. Fui incapaz de manter meu voto de castidade digital, e admiro quem consiga. Quando intelectuais como Jonathan Franzen - e Eugenio Bucci, em artigo recente para ÉPOCA - juram que são felizes na condição de dinossauros tecnológicos, sinto-me um rematado pecador. Mas acho que eles mantêm o celibato digital mais como estratégia de militância filosófica do que por uma fé inabalável em que o ser humano possa se purificar longe dos tentáculos da aranha digital. De minha parte, não tenho vocação sacerdotal. Sou curioso demais para manter a reputação ilibada. Como disse o polemista austríaco Karl Kraus: “Conhecer o Diabo sem assar no inferno é algo que conviria a muita gente”. Prefiro queimar no inferno a posar de falso moralista.
E já que me encontro no inferno, vou tentar resistir por estes círculos mesmo, sem perder a argúcia. Uso os dois serviços, mas prefiro o Twitter, por inclinação. Vou raramente ao Facebook, até porque não gosto de fuçar detalhes das vidas alheias e muito menos ainda que investiguem a minha. Eu acho que aí reside a diferença essencial entre quem usa mais o Twitter do que o Facebook: o Twitter é fundamentalmente aberto e público, ao passo que o Facebook oferece ao participante um ambiente supostamente privado. Supostamente porque sabemos que Zuck libera os dados dos usuários a empresas que queiram pagar para utilizá-los para vender seus produtos e serviços. Segundo o militante digital Eli Pariser (no livro O filtro invisível – o que a internet está escondendo de você, Zahar, 252 páginas, R$ 41,75), o Facebook filtra a informação e usa um algoritmo que esconde a maior parte dos seus amigos, destacando aqueles com quem você mais interage. Com isso, o Facebook tribaliza os usuários, tornando sua comunidade um grupo ordenado de pessoas que pensam, se comunicam e têm gostos idênticos entre si. Mesmo assim, ainda acredito que é possível manter a mesmo tempo a privacidade e o perfil no Facebook – bastando para isso ser seletivo e alterar as configurações de privacidade do site. Segundo Pariser, o Twitter é um veículo mais livre e transparente, porque sua regulamentação é tênue e seu algoritmo, totalmente inclusivo.
De alguma forma, o Twitter se parece com os meios tradicionais de comunicação, pois permite que se propaguem informações sem restrições de comunidade. Daí, talvez, os profissionais de comunicação gostarem mais dele do que do Facebook. O usuário pode seguir uma celebridade – e ser seguido por ela – sem filtros. Você pode dar um furo de notícia e se tornar importante da noite para o dia. E também tem a opção de configurar o Twitter para que ele sirva como uma rede superexclusiva, ou então se valer de um pseudônimo para se expressar livremente, sem as amarras de sua condição social e profissional. Eu, por exemplo, tenho duas contas de Twitter, uma aberta e pública, e outra fechada, só para a família. Como interagir com parentes não se parece nem de longe com diversão, minha conta superprivada é quase inoperante. Por curiosidade, a conta fechada é, entre as duas, a que mais recebe solicitações de ingresso. O Twitter se afigura (e se configura) mais ágil que o Facebook e, ainda que não traga aplicativos e páginas atraentes como os do Facebook, permite comunicação com interlocutores específicos e divulgação de fotos instantâneas.
Por tudo isso, o Twitter aparentemente combina mais com pessoas mais despreocupadas e capazes de agir em público com desenvoltura. Quem usa o Twitter corre risco. Parece andar em uma praça, sujeita às intempéries, ao acaso e ao contato das multidões. Faz e recebe críticas, ataca e é atacado. Quando alguém namora pelo Twitter, o faz à vista da massa incógnita – mas não está nem aí para isso. A presumível livre expressão do pensamento faz parte do mecanismo do gorjeio quase infinito, que se dissemina através da retuitagem. Ele fornece a ilusão de que o usuário é popular, pelo número de pessoas que o seguem. Mas até que ponto quem segue leva o que ele diz de fato? Até que ponto os donos do serviço não escondem algo do usuário? É um meio de comunicação imprevisível, caótico e violento. Por isso, sujeito à suspeição.
O usuário de Facebook parece ser mais passivo e inclinado ao convencionalismo. Ele tem um só nome, um só endereços e um só rosto. Seu prestígio não se mede pelo número de seguidores como o Twitter. Ele precisa se sentir protegido e não ser contestado. Ali só existe o verbo “curtir”. Não existe o “discordar”. Isso apazigua os ânimos e torna todos falsamente concordes. O Facebook apresenta um processo de afinidades menos eletivas que forçadas. Lembra um ambiente amplo, porém fechado e controlado. Quem está sob seu teto é obrigado a fazer amigos e se relacionar intensamente com os outros, só que mantendo a discórdia fora da conversa. Bloquear pessoas é o mesmo que ofendê-las para sempre. Até os jogos são consensuais, como montar uma fazenda e atirar em pássaros feitos de bits. O usuário do Facebook adora que Zuck e os outros organizem sua linha do tempo, poste fotos e hierarquize sua rede de relacionamentos.
Para resumir, o Facebook é entediante e fechado tal qual colegas em uma escola, ao passo que o Twitter se apresenta difuso e divertido como um espetáculo a céu aberto. Mesmo assim, há em ambas as redes sociais sempre alguém monitorando o que você diz, faz e pensa, em graus diferentes de vigilância. Isso para mim soa como uma terrível restrição à liberdade. Neste momento, estamos sendo conduzidos a optar por um e outro, e escolher entre a cruz e a caldeirinha. Obviamente, você ainda pode fazer parte dos dois ambientes ao mesmo tempo. Mas, na hora em que um conquistar o outro, para onde irá? Sim, é possível sobreviver sem um deles – e, melhor ainda, viver sem nenhum dos dois. Porque daqui a pouco deverá surgir uma invenção muito mais ardilosa que os tornará obsoletos. A outra alternativa, não de todo desprezível, é voltar a ser virgem de internet. Fica a pergunta: existe virgindidade reversível?   

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Coxinhas na área vip



Por que a juventude dourada vai a shows para brilhar mais do que a atração principal

LUÍS ANTÔNIO GIRON


O público de shows está se alterando, em especial o de espetáculos de rock e pop em espaços abertos. As mudanças podem ser observadas nas atitudes, na gestualidade e no estilo, na forma de falar e de cantar. No último show da banda californiana Maroon 5, na Arena Anhembi em São Paulo, no domingo, dia 26 de agosto, não foi diferente. Como a cada evento surge uma novidade no âmbito do comportamento, são perceptíveis agora algumas inovações bizarras dignas de nota. O público, predominantemente jovem, anda mais antipático e exibicionista do que jamais pude testemunhar em 30 anos de cobertura de espetáculos desse tipo. Os frequentadores de hoje comparecem mais para ser conhecidos do que conhecer, mais para brilhar do que para ver o espetáculo. A interação com os artistas deu lugar à ostentação, a espontaneidade ao exibicionismo. Os novos espectadores são muito diferentes dos que já passaram. Gostaria de explicar por que essas mudanças ocorrem, e em que elas alteram a própria maneira de praticar e compreender a arte.  
Antes de mais, um naco de reflexão. O público é histórico. Tem data e local. Varia de acordo com as mudanças de anseios, sonhos, sensibilidade e interesse em determinados temas ou aspectos da realidade, da tecnologia e da arte disponíveis no momento. Lembro-me de que, três décadas atrás no Brasil, havia uma fome terrível de conhecimento. O interesse crescia na razão inversa da oferta de espetáculos. Eram os anos 80, quase nenhum talento internacional ousava se apresentar no Brasil. E, quando o fazia, como a banda Queen, em 1981, a reação era apaixonada. Eu me recordo de ver o Morumbi na penumbra, iluminado pelos isqueiros e fósforos, a celebrar Freddie Mercury e banda, em um tempo em que não havia telões. Os jovens se encontravam para escutar um LP de vinil do Queen ou do Pink Floyd de cabo a rabo, sem dizer nada. Eram descabelados, malvestidos, ingênuos, agressivos, mal sabiam as letras e muito menos entendiam inglês muito bem. Acampavam na frente do estádio para sonhar com alguma utopia que o rock ainda poderia trazer.  
Claro que não trouxe a utopia, e, ao longo da “década perdida” – como denominam os economistas os anos 80 no país – a oferta de shows era escassa e o público não sabia se comportar direito. Sabia, sim, vibrar e interagir com as bandas. Lembro de um show dos ingleses do Echo & the Bunnymen em 1985, quando a plateia suplicava pelos tênis dos músicos – e eles acabaram jogando os tênis que tinham nos pés sobre uma turba enlouquecida. Vigoravam pobreza e falta de informação. Se ir a shows podia ser divertido, também oferecia seus perigos. Como quando os punks e os carecas do ABC brigaram em uma extinta casa de espetáculos de São Paulo quando por aqui passaram a banda americana The Ramones. Ninguém saiu ileso da pancadaria. Meninos e meninas riam das roupas sujas e molhadas. Os discos dos Ramones eram raros, todos os discos eram caros, mais ainda os importados. Ninguém pensava em YouTube. 

Foi assim até a metade dos anos 2000. Mas, com o crescimento econômico, a aparição da internet e a imposição das redes sociais, o comportamento se alterou nos shows de estádio. Com a decadência da Europa e a crise americana, os músicos passaram a ver o Brasil como a Meca da grana. O país tornou-se ponto obrigatório das turnês internacionais. E o público, mimado por todos os astros, já havia viajado, aprendido inglês e adquirido hábitos alinhados com as plateias mundiais. À medida que o gosto se banalizava, aumentava o acesso à informação – e o desinteresse por elaborá-la.  
Os anos 90 representaram a abertura econômica e cultural do Brasil para o mundo, apesar de tudo. E foi possível viajar, comprar discos, veio a MTV e um pouco de sofisticação. Um pouco. As roupas jovens não passavam de uma imitação barata das que os grandes centros exibiam. E os festivais que começaram a acontecer com mais freqeência traziam astros em fim de carreira, ou quase. No Rock in Rio de 1991 no Maracanã, lembro de um público largado, dançando ao som da banda inglesa Happy Mondays. Sob chuva, as garotas não temiam desmanchar a escova ou a chapinha – até porque não faziam. E tinha gente que ousava se despir completamente na frente do palco. A era grunge e das raves estava em alta. Começaram a aparecer telões nos estádios. E as pessoas se juntavam em uma desavergonhada maçaroca de desejos. Havia paixão pela música e por discuti-la em grupo. Quem conhecia mais discos e canções era rei. Havia interesse pela música, então o veículo dos anseios juvenis.  
A resultante dos novos tempos foi a aparição da geração coxinha, dos jovens de posses que são tão bem comportados, que são iniciados sexualmente e fumam maconha nos estádios como se fizessem uma lição de casa. Na plateia modelo 2012, as meninas chegam vestidas para matar: de salto alto, minissaia e maquiagem carregada. Os rapazes surgem embriagados e drogados, ostentando grifes da moda e prontos para a azaração. Até aí não difere tanto dos públicos do passado, salvo pela qualidade das roupas e dos acessórios. O consumo de artigos de luxo nunca foi tão disseminado. Quase todo mundo carrega smartphones, correntes de ouro, brincos e relógios luxuosos. A ostentação ao ar livre muito se deve à implantação das áreas vip. Trata-se de uma situação escandalosa, pois encena a luta de classes nas arenas antes devotadas à igualdade proposta pela música pop. Na Arena Anhembi aconteceram muitos assaltos – e me surpreende não ter ocorrido um motim dos menos favorecidos, separados do palco por uma constrangedora cerca. Por isso, minha descrição é do público que pode ver um espetáculo de forma adequada – ou seja, na atual situação, aquele que paga para figurar nas áreas vip. Os excluídos que se acotovelam nos setores normais não podem ter nem o direito de dizer que assistiram ao show. Estão sendo enganados e, ainda assim, conseguem se divertir.
Mas voltemos aos que se divertem de fato, os coxinhas das áreas vip. Com tantas inovações e privilégios, a plateia se transformou em palco. O exibicionismo dos jovens é tão grande que ofusca o brilho das atrações do palco. Na realidade, os coxinhas parecem ir aos estádios pura e simplesmente pelo evento social. Eles gravam nos celulares sequências inteiras do espetáculo, quando não o show completo, para depois postar nos seus canais privados no YouTube, detalhando o set list. Tiram fotos uns dos outros, ou autofotos, só para postar no Facebook e no Twitter – imagens que ninguém quer ou vai ver. 
A maioria não presta atenção ao que se passa no palco: enquanto canta as letras decoradas mecanicamente, ensaia passos de dança, olha para os lados, namora e envia torpedos. O sujeito da plateia se acha astro, mas a única pessoas que está prestando atenção nele é ele próprio. Todo mundo se mira na câmera frontal de seus celulares. Isso faz lembrar o teatro do narcisismo em sua quintessência: o novo lago, o novo espelho fixa e eterniza a imagem da volúpia egocêntrica. Desse modo, a cultura das celebridades na verdade rebaixa os artistas à condição de objeto de deboche. Adam Levine, o elétrico vocalista do Maroon 5, era alvo de gritos e camisetas como quem fosse linchado por adolescentes mais interessados no corpo dele do que na música que cantava. O público se afigura mais onanista, desatento e desmemoriado do que nunca. Como a música corre hoje feito água gratuita pelos encanamentos da internet, ninguém dá mais muita bola para ela. Deixou de despertar interesse. Viv’alma se reúne para ouvir um disco inteiro e prestar atenção a sua mensagem. Que álbum resiste ao BitTorrent e à falta de memória do ouvinte? O rock e o pop sofrem uma metamorfose como nenhuma outra forma de música. É como se sua essência fosse condensada ao formato mp3, conspurcada, espoliada – e não restasse mais que ruínas da velha arte da rebelião. A arena da chacina está em cartaz nos shows a céu aberto.  
Enfim, o que mudou no público esses anos todos? Ao acompanhar a marcha da civilização, ele certamente trocou a fome de cultura pela congestão das ofertas irrelevantes e a diluição do prazer artístico. O excesso matou a curiosidade, as utopias e a antiga magia da juventude. E principalmente arrancou seu coração. Não posso querer voltar atrás e muito menos culpar os coxinhas por festejar na área vip. Resta-me apenas lamentar por aqueles que anseiam em ser iguais a eles – e são a maioria dos jovens, inclusive os assaltantes de coxinhas.