Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Fora, iPod!

O tocador de mp3 sai de cena. Maravilha!

Estou em clima de retrospectiva da década. Lembro-me de que entrei nela fazendo promessas para o milênio, sem muita esperança de cumpri-las por razões óbvias. Sou tão pessimista, tão pessimista, que pensava que o mundo não iria sobreviver ao bug do milênio. Quando veio o 11 de Setembro, encomendei minha alma. Não imaginava nem mesmo chegar a esta altura alta da História, de onde agora vislumbro o relógio (digital) das invenções a girar loucamente, à medida que o planeta se esvai pelo ralo.

Ver a humanidade "evoluir" é sempre um espetáculo surpreendente, quando não aterrador. Estou aqui para proferir solenemente o discurso fúnebre do ícone tecnológico que marcou esta década que os críticos de pop demoraram a chamar de 2000 por desconhecimento ou falta de charme no termo. Eis-me às lágrimas, ante o cadáver... do iPod, o tocador de mp3 da Apple que reinou despoticamente sobre a vida musical humana nestes primeiros anos do século. E eu que julgava não ser capaz de viver para ver a sua queda fatal!...

Sigo o cortejo que deve condizu-lo à morada do esquecimento. Merece campa tão imensa para uma engenhoca tão bela quanto minúscula? Ora, pois, como não! O despojo estirado respeitosamente ao mármore ritual evoca o apotegma latino "sic transit gloria mundi", assim passa a glória deste mundo. É um produto dotado de um design tão belo que seus vários modelos devem já figurar em museus do gênero. E nos lembra que todos, conquanto belos, volveremos ao pó. Nossa triste homenagem ao adorável quadradinho que tanto fez para a destruição da indústria da música e para a degeneração do ouvido dos consumidores. Que agora expira exânime para lamentação de muitas carpideiras geeks.  

O decênio se encerra com a aniquilação de um inimigo. Eu poderia bramar que sua desaparição vai preencher uma lacuna e permitir que a música volte a soar íntegra e mais na enganadora miniaturização do arquivo condensado do mp3. Eu poderia acusá-lo de, a um só tempo, ter feito da iTunes Store a maior loja de downloads de musica do mundo e, ao mesmo tempo, ter disseminado a pirataria no mundo todo. De um lado criou um monopólio, de outro destruiu a concorrência. Poderia lançar as piores maldições em torno dos estragos que as gerações de minis, nanos e classics espalharam pelo planeta. Esses pequenos carrascos venderam aos consumidores a ilusão de que qualquer um poderia carregar sua discoteca num quadradinho de 150 gramas, que poderíamos nos livrar alegremente dos nossos CDs. Eles assassinaram os discos, a música clássica gravada, a irmandadade dos audiófilos... Tantas invetivas ainda seriam legítimas de invocar aqui. 

No entanto, não serei vingativo ou cruel pela derrocada alheia. É melhor compreender os motivos da morte. O primeiro deles é o fracasso de vendas. Os iPods clássicos estão saindo de linha, por falta de interesse do público-alvo, aquele que deveria se interessare realmente em estocar músicas, mesmo que em tamanho miniatura. Logo os outros modelos despencarão em vendas. 

O segundo é técnico. O iPod sai de cena porque deixou de representar a ponta da tecnologia. Com a aparição em 2007 do iPhone, com seu acesso direto à internet e a capacidade de fazer dowonloads e outras tarefas, o iPod perdeu a corrida tecnológica, porque não passava de um objeto tecnológico dependente dos computador, e operando no antiquado modo offline. Nem mesmo o modelo iTouch, imitado do iPhone, conseguiu trazer o aparelho à vida. O iTouch chega a ser mais canhestro que o patético Kindle da Amazon, pois exibe apenas as desvantagens do iPhone, sem a portabilidade de um iPod nano, por exemplo. Suas funções mais avançadas são meio ridículas.

O terceiro motivo é o artístico. Vivo a repetir, mas fá-lo-ei nesta hora grave, em que baixa ao túmulo o cadáver corrompido: os arquivos sonoros digitais são desprovidos de qualidades mínimas de audibilidade. Servem só para audiófobos que não difrenciam graves de agudos, dinâmica de altura. Filmar ou assistir a filmes em nanos de quarta geração pode ser uma experiência fascinante... se você for um protozoário que ame demais o cinema. Ou uma pulga com bons óculos para enfrentar sessões miniaturizadas. 

        A voga da "nuvem" pela internet e da tecnologia dos arquivos por streamings (assino, feliz, há um ano um serviço de streaming de música clássica que executa 200 mil arquivos digitais com qualidade de CD) e o surgimento de novos lançamentos de aparelhos digitais odem abrir olhos e ouvidos do público para tais verdades. Daí, sim, o consumidor irá lamentar o quanto éramos infelizes e não sabíamos, como as pessoas se comportavam como ingênuas na década de 2000 porque se resignavam a usar fontes de ouvidos para ter acesso a um som abaixo do horrível. Mais ou menos como hoje rimos de quem usava walkman da década anterior, ou do cinema mudo nos anos 1920. Jamais imaginei que eu poderia viver nos anos 10.... Quem sucederá o iPod? O iPad (o leitor digital), o iPed ou o ai-qualquer coisa?

Não é momento de prospecções, e sim de olhar para trás e prantear o tablete que perfaz seu melancólico destino. Ele deixou de ter importância, foi despojado de sua condição de símbolo, imprestável geringonça. Aqui jaz o iPod. Viva a música! Viva o cinema! Viva a arte descondensada!

Participe do Projeto Generosidade: www.projetogenerosidade.com.br   --- As informacoes contidas nesse e-mail e documentos anexos sao  dirigidas exclusivamente ao(s) destinatario(s) acima indicado(s), podendo ser confidenciais, particulares ou privilegiadas. Qualquer tipo  de utilizacao dessas informacoes por pessoas nao autorizadas esta  sujeito as penalidades legais. Caso voce tenha recebido esse e-mail por engano, por favor envie uma mensagem ao remetente, deletando-o em seguida. Quaisquer opinioes ou informacoes expressadas neste e-mail  pertencem ao seu remetente e nao necessariamente coincidem com  aquelas da Editora Globo. 

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Clarice Lispector virou pastel

A imagem da escritora Clarice Lispector tem sofrido metamorfoses impressionantes desde sua morte em 1977, aos 52 anos. No passado recente ela era interpretada apenas por semioticistas esotéricos ou por feministas. Agora Clarice virou um pastel de vento literário acessível ao bolso – e ao cérebro – de qualquer um. Sempre tive certo pudor de escrever sobre sua obra. Não me sentia à altura das estratosferas metafísicas de suas ficções. Mas, agora que o assunto ficou pop, talvez tenha chegado a minha hora. A hora do buraco negro em que caem todos os ídolos.
Os exemplos atuais da exitosa exumação de Clarice são dois, só neste ano. Para não falar da exposição sobre a autora em 2007, no Museu da Língua Portuguesa. O primeiro exemplo se deu na segunda-feira, 23 de novembro, uma enorme filha se formou na Livraria Cultura da avenida Paulista em São Paulo para a noite de autógrafos de uma biografia da escritora feita para americanos, e agora traduzida no Brasil. Clarice, uma biografia (CosacNaify, 648 páginas, R$ 63,20 ), do professor Benjamin Moser, seria uma obra aparentemente desprovida de interesse para os brasileiros. Trata-se de uma investigação sobre a vida e a obra da escritora. Ele conta em detalhe o nascimento na Ucrânia, a infância no Recife, o cotidiano como dona-de-casa, mãe e jornalista no Rio de Janeiro e as viagens pelo mundo em companhia do marido diplomata. Em paralelo, o estudioso repassa o desenvolvimento de sua produção literária, com boas análises e sinopses, sua recepção e consagração. É um livro de divulgação de boa qualidade. Não gosto da análise fundamentalista, que reduz a arte narrativa e a filosofia de Clarice a suas raízes judaicas. Realmente ela foi criada em uma família judia devota. Mas Clarice extrapola as contingências religiosas e étnicas, e, assim, atinge a alta reflexão sobre a existência de um homem abandonado pela divindade. Ela se tornou universal porque foi além da Ucrânia, do Recife e do Brasil. Ela fundou o seu próprio território, a sua literatura.
Mas os brasileiros já sabem de tudo isso – ou pelo menos deveriam saber. Será que saímos de casa só para macaquear o americano, a exemplo dos havaianos, que cultuaram o capitão Cooke como deus? Talvez o problema seja outro. É que, ao que eu saiba, nem um único intelectual autóctone foi capaz de escrever uma obra abrangente sobre Clarice. Precisou um jovem acadêmico ianque ocupar-se do trabalho, com aquele olhar detalhista tão característico dos americanos. Tenho certeza que os especialistas locais estão se roendo de inveja da competência de Benjamin Moser em organizar e analisar o material de pesquisa.
O segundo exemplo é mais pedestre, e sintomático. Trata-se da coletânea Clarice na cabeceira (Rocco,256 páginas, R$ 32,00), organizada por Teresa Montero, uma das biógrafas nacionais da escritora. Ela juntou 21 fãs de Clarice para indicar seu “conto de cabeceira” (como se isso existisse) com um textinho de introdução. É a versão em livro dos famosos discos pau-de-sebo de antigamente: um monte de gente se reúne para ver quem consegue o prêmio maior da quermesse verborrágica. Dentre os participantes estão luminares das letras, como Rubem Fonseca e Luís Fernando Veríssimo, bem como gente do show business, como a atriz Beth Goulart, a apresentadora Monica Waldvogel e as cantoras Fernanda Takai e Maria Bethânia. Todo mundo mete a colher no assunto, pretendendo iluminar a obra da escritora com suas observações brilhantes. Bethânia é a mais sincera. “Não fazer um texto sobre a Clarice”, diz. “Minha admiração por ela e pelo trabalho dela, sua obra, me faz, me obriga a reconhecer que não sou capaz de comentar o que for sobre sua obra”. Isso não a impede de recomendar, sabe-se lá por quê, o conto “Desastres de Sofia”. Fernandinha Torres vem com a seguinte pérola: “Tenho até vergonha de escrever. CLARICE ME DEIXA MUDA.” [em caixa alta mesmo] E escolhe “A quinta história”. Fernanda Takai nos presenteia com a seguinte obra-prima da ambiguidade: “Eu que pensava que conhecia bem Clarice me vi com um exemplar de A via crucis do corpo ainda virgem nas mãos. São textos bem desavergonhados e intensamente concisos”. Seu conto de cabeceira é “A língua do p”, sobre uma mulher currada em um trem. E assim por diante, uma mixórdia atrás da outra, salvo exceções óbvias.
A coletânea estampa em letras impressas aquilo que não passaria de um papo de mesa de bar. E é um sintoma da nossa terrível miséria intelectual. Clarice é qualquer coisa para qualquer um. Serve para embalar todo tipo de leviandade. A coletânea é ilegível. Mas garanto que poucos lerão de verdade a biografia de Moser. A fila era provavelmente pura tietagem, networking de blogueiros e afins, que se tuítam um rindo mutuamente do outro. Clarice é uma forma de todo mundo se exibir no pedestal ao lado de um retrato da beldade exótica que lembra uma estrela de cinema. É uma banqueta do cardiofunk de literatos que se fingem de leitores.
Ridículo. Queria ver essa turma ler e, mais importante, compreender a obra de Clarice. Quando todos os seus livros se tornam canônicos, torna-se impossível distinguir os bons dos ruins. E ela escreveu ruins, como o citado A via crucis do corpo. E os bons – como Perto do coração selvagem e Paixão segundo GH, para citar os meus preferidos – são bons não porque supostamente evidenciam uma “literatura feminina” (até hoje não sei que diabo é isto), como queriam as feministas, ou uma trama de signos que mordem a própria cauda de polissemias interpretantes, como falavam minhas professoras de semiótica em cursos dedicados a Clarice. São bons porque desferem golpes de dúvida e metafísica diretamente no cérebro do leitor, transcendendo a própria narrativa – criando um mundo, como eu já disse. Um universo em que o leitor pode viver a vida inteira sem sentir falta de outro alimento espiritual. São bons porque sabem contar uma história sem parecer uma cópia de algum escritor europeu ou americano da moda. Os textos de Clarice são bombasticamente originais. E refratários à primeira leitura. Se alguém pensa que pode mergulhar naquele húmus de sangue, alma e digressões e sair de lá como entrou, como se lesse um romance espírita psicografado, então perdeu a viagem. A maioria dos leitores é assim, em especial esses leitores de salão, hoje com o cérebro capaz de apreender 140 caracteres, contando os espaços. Isso se deve também à impotência dos estudiosos da obra de Clarice, incapazes de limpar as brumas teóricas em que adentraram para tentar passar algo lógico e exato para o público. Nossos acadêmicos produzem teses tão chatas que nem eles quem lê-las depois de obterem os títulos e as vantagens com suas “obras”. E a ignorância segue triunfante no mercado. Mesmo assim, chego a preferir que os textos de Clarice sejam mal lidos que não lidos. Que se tornem tão populares que mais pessoas possam entendê-la de verdade. Alguém há de apreciar o recheio espectral no pastel que ela preparou para a posteridade.
O perigo desse tipo de resgate frívolo é a reação que advém dele. Já o fenômeno acontecer com outros grandes escritores, com ou sem vocação pela fama. Lembro-me de que Oswald de Andrade ainda era venerado nos anos 80, por causa da tal de antropofagia e seu teatro engajado. Em seguida ele foi linchado e jogado ao lixo das obras literárias pueris. Por conta de centenários de nascimento e morte, Machado de Assis e Euclydes da Cunha voltaram a boiar na superfície dos interesses, mais para a turma dos pesquisadores tirarem casquinhas das efemérides, produzindo palestras e livros de autoajuda e autoengano. Não me espanta se daqui a pouco vier um gaiato chamar o Euclydes de racista e Machado de gago. Porque isso aconteceu no passado e pode se repetir.
É por essas e tantas outras que vale a pena continuar vivendo por longo tempo. Sempre uma novidade aparece, em especial aos mortos que não se defsendem dos sucessivos revisionismos por que passam. A curiosidade matou o gato, mas me anima a viver. Eu gostaria de estar lúcido daqui a 30 anos só ver Clarice ser convertida numa espécie de Nossa Senhora do Brasil de uma nova religião. Ou ser espinafrada.

Terça-feira, Novembro 24, 2009

Parricídio digital

 

Minhas filhas me bloquearam no twitter, no messenger e no Orkut

Acho engraçado como divulgam frequentemente pesquisas científicas sobre os benefícios da internet para o desenvolvimento motor, da sociabilidade, da educação e da cultura das crianças e adolescentes. A gente sofre um bombardeio de informações ufanistas e exaltatórias que, em geral, aquele que quer ser ou parecer antenado adota de olhos fechados e sorriso beatífico estampado no rosto. Vivemos tempos da aceitação passiva de todas as novidades tecnológicas, sem tempo para analisar tudo o que se passa. Nosso raciocínio e nossa capacidade crítica foram atropelados pelas inovações. E estamos ali, estatelados, sem socorro, felizes pelo que recebemos. Como se a civilização avançada houvesse abdicado da razão. Uma vez que as novidades chegam embaladas em discursos competentes e argumentos embasados em pesquisas acadêmicas, a gente se rende. Mas a realidade do dia-a-dia é bem outra. A internet virou um estorvo para a maior parte das famílias.

No momento em que escrevo este artigo, estou clicando no menu do MSN para dar um oi aos amigos ou discutir uma pauta com um colega. Eu sei que agora mesmo  minhas filhas – uma de 15 e outra de 17 anos – estão conectadas, mas o ícone com os nomes delas se encontra aparentemente inoperante. Elas me bloquearam no messenger. E isso não vem de hoje. Quando eram menininhas, cada uma ganhou ganharam um mascote virtual e logo se afeiçoaram a ele. Não era mais o Tamagotchi, mas um Pikachu, aquele cibercoelho infernal que chefiava os Pokémons. Taz tempo, porque lembro que comprei os aparelhinho numa loja de brinquedos do World Trade Center em Nova York. Há uns  quatro anos, elas começaram a usar seus laptops particulares. Desde o princípio elas tomaram a decisão de me afastar. E isso, do ponto de vista dos adolescentes, um significado ainda mais grave do que do para mim. Porque elas me expulsaram do seu universo de contatos interativos. No mundo virtual, elas eliminaram o seu próprio pai... E repetiram o parricídio digital tornando-se invisíveis para mim no twitter, no Facebook, no Orkut... e não tenho dúvida de que repetirão o delito em todos os softwares que venham a surgir.

Como deu para perceber, não sou analfabeto em internet. É um hábito de 14 anos já. Antes eu usava o icq, depois passei para o mesenger do Yahoo e finalmente me rendi ao MSN porque ser mais popular. Quando montei meu primeiro blog, em 1995, a coisa nem se chamava blog, e sim site no Geocities. Depois passei para o blogger e faz uns cinco meses que tuíto sem parar. Elas deveriam entrar para a comunidade "eu amo o meu papai". Ou me deixar ficar em contato. Que nada.  

Se ao menos hoje estivesse em moda o second life (lembra?), eu poderia aceitar a sugestão de um amigo, me disfarçar de Akon (não é um Pokémon, e sim aquele rapper que vende cueca nos shows) e passar por amiguinho e daí reconquistar meu prestígio junto a elas. Mas ninguém mais  passeia pelo Second Life,  ele anda mais deserto que a cratera Cabeus onde encontraram água na Lua recentemente. Já basta a life. Uma second dá trabalho demais. Só me resta encostar a minha cabecinha no meu próprio ombro e chorar. Ninguém vai se condoer de mim.             

Afinal, não é novidade ser abandonado ou desprezado na rede. Isso já entrou para a cultura popular. As inovações aparecem em todo tipo de música. Vou tentar fazer coro à dupla sertaneja Ana Elisa & Mariana, que bombam na web com o cateretê "Google" e suplicar: " Me joga no Google/ me chama de pesquisa/ e diz que eu sou tudo o que você procurava." A internet rendeu até canção de corno manso. Há cinco anos, Frank Aguiar, o Cãozinho dos Teclados, causou com a toada "Vou te excluir do meu Orkut". Vou me vingar delas cantando assim: "Eu vou te deletar te excluir do meu orkut/ Eu vou te bloquear no MSN/ Não me manda mais scraps nem e-mail, power point/ Me exclua também e adicione ele". Coisa de visionário. Mutatis mutandis, Frank previu meus dias atuais. A parte do power point eu não entendo até hoje - como a pessoa amada pode enviar power points de amor? -, mas já é tecnologia ultrapassada.

Como um pai contemporâneo abandonado como eu poderia se expressar? Talvez lançando um hit de melody à moda do Pará intitulado "Apps de pai". Na canção, eu citaria o saudoso Teixeirinha (acompanhe a bolinha mágica e cante comigo): "O maior baque do mundo/ que eu tive na vida triste/ foi ver minhas filhinhas/ me bloqueando no twitter/ fazendo gato e sapato/ do emotion de coração/ que enviei, retrotuitei/ Elas não me convidaram/ nem mesmo pro Google Wave/ zombando de quem/  com tanta paixão/ pelos apps da vida/ fez deste ringtone uma canção". Talvez eu triunfe na uebe com a música, mas certamente não vou resgatar minhas filhas ingratas...

Há muitos pais por aí que vivem o mesmo drama que eu e minha mulher. Como eu digo, pegamos de frente o touro digital. E eu digo que a tecnologia está prejudicando o desenvolvimento dos adolescentes. Presenteamos as crianças com computadores portáteis na esperança de que elas possam fazer seus trabalhos e troquem com os colegas. Quanta ingenuidade! Os moleques tweens e teens usam o pretexto de fazer trabalho para bater papo no MSN, trocar fotos, baixar música e outros arquivos... ter, enfim, uma vida fora da esfera dos adultos. Eles não convivem com a gente, apenas nos toleram à distância. O resultado está no rendimento medíocre no colégio, na indiferença pelo conhecimento, na falta de curiosidade, já que tudo está à disposição, ao alcance de um clique – e, por ser fácil, pode ser desprezado. Os professores tentam parecer moderninhos e passam lições para serem feitas no Google. E o resultado é um intenso recortar e colar. Será que eles não notam a bobagem que fazem? Os alunos do ensino médio, salvo exceções, não estão processando informações, não chegam nem a compreender em que consiste conhecer. Eles vivem um mundo à parte.

Um amigo meu faz um reparo. Observa que os adolescentes sempre viveram assim, e que nós quando tínhamos 15 anos queríamos evitar os mais velhos. É verdade. Mas no nosso tempo éramos dependentes dos pais, precisávamos deles, nem que fosse para pedir mesada. Tínhamos que falar com os mais velhos. Devíamos respeito e tínhamos medo. A turminha século XXI jamais enfrentou esse problema. Nós, pais, somos mais preocupados e devotados. Nada falta aos menores. E eles ainda por cima se apossaram de um campo virtual que está fora e longe do controle dos pais.  Não estão amadurecendo porque não fazem questão de conversar com os adultos. Permanecem em um universo subterrâneo, desconhecido da maioria da gente grande. Mesmo quem tem um certo saber adquirido no mundo digital, como eu, é obrigado a ficar de fora, bloqueado, excluído, deletado. Não há mais diálogo possível.

Como resultado, a internet está tornando a vida familiar um circo infernal em que o entretenimento virou a única opção. Eu nunca desejei exercer uma vigilância Big Brother sobre minhas filhas. Ao contrário, só queria praticar o verbo que tanto celebram hoje: interagir com elas. Fui censurado! Morri para elas na blogosfera, twittosfera e outras esferas com as quais eu possa sonhar. Quando acontece de estarmos todos offline em casa no fim de semana, as conversas não passam de monólogos polifônicos. Ensaio dar um conselho, e elas me interrompem fazendo um gesto de minimizar a tela, elas me dão um zoom out simulando um comando touch, rindo de mim. isso quando não tampam os ouvidos com um tocador de mp3 enquanto estou falando, para cantar o últimos sucesso de Lady Gaga. Sim, me confesso impotente para resolver a situação. O mais curioso é que não temos conflitos sérios em casa. Todos nos amamos e vivemos com conforto. Talvez a grande desgraça seja que os pais de hoje deixaram de ser modelos. Um exemplo simples é a biblioteca. Minhas filhas já nasceram dentro de uma, que eu formei porque nasci dentro de outra, a dos meus pais. Estes, por sua vez, construíram uma biblioteca a partir da de meus avós. Assim estudamos, aprendemos, lemos, nos divertimos de geração em geração. E quem diz que elas querem ler textos em papel? Preferem pegar tudo pelo computador. Tenho uma boa edição dos Lusíadas, obra que elas estão estudando. Mas foram ler a epopeia de Camões no dominiopublico.org.br. Quem sabe se eu comprasse um kindle? Mas é canhestro demais para o nível delas. Vou esperar uma engenhoca e-book com comandos de toque (touch), e tentar convencê-las a ler algo que não seja por obrigação escolar.

 Deve haver uma saída para tudo isso, mas ela só será encontrada quando esta geração de adolescentes do milênio terá crescido e virado objeto de estudo. A turma da próxima década poderá se beneficiar, espero. Basta que as pessoas parem de se comportar ingenuamente diante do avanço tecnológico. Ao longo desta década que termina, a internet facilitou muitas coisas, mas conspurcou tantas outras. A cultura? Pobre coitada, pois ela se perdeu no meio de um download incompleto. E eu continuo bloqueado...

 

 

 

 

 

 

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

O fim próximo

 O  que o calendário Maia revela sobre o Juízo Final em 2012

 

Depois de tantas novidades, a humanidade parece estar à espera de um ponto culminante para uma história que está por terminar. O que poderia ainda espantar as multidões acostumadas aos espetáculos e aniquilações e reviravoltas as mais avassaladoras e imprevisíveis? A resposta é: só o fim do mundo pode matar a curiosidade de nossos sentidos embotados pelo excesso de informação.

O ser humano anda sedento de apocalipse, mesmo que ele seja parte envolvida. Daí o sucesso dos programas de televisão e filmes que trata de catástrofes em geral. No fundo, a aniquilação em massa da humanidade é fascinante. Houve um gostinho de fim dos tempos com a explosão das bombas de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. Outro se fez presente na crise dos mísseis nucleares soviéticos em Cuba apontados para os Estados Unidos em outubro de 1962. Mais uma dose de elixir de apocalipse se deu em 11 de setembro de 2001, com os atentados suicidas contra o World Trade Center e o Pentágono nos Estados Unidos. Por causa disso, até poucos meses atrás o mundo amargou a impressão de que nada mais poderia acontecer. E as plateias se cansaram de tantas hecatombes em série que têm assolado o mundo: atentados, massacres, terremotos, tsunamis, a agonia da natureza... tudo virou um tédio só. Não parecia haver filme nem profecia capazes de preencher o instinto do rebanho que ruma à execução final. Experimentamos vários fins do mundo, anunciados ou não. Cansamos.

Agora o desejo ancestral volta a ser aceso com o longa-metragem 2012, um blockbuster sobre a catástrofe que destruirá o planeta na data-título. Mais especificamente, o filme mostra que tudo desabará no final do ano de 2012, inclusive o nosso Cristo Redentor. O papa explode com o Vaticano, a Golden Gate, o Empire State... Corra que o fim do mundo vem aí... mais um.  O Apocalipse de São João fala de 1999, no que foi seguido por Nostradamus. Esses nossos amigos profetas assustaram a humanidade até o  bug do milênio (lembra dele?). Eu próprio passei a infância tentando decifrar Nostradamus e São João, para não falar no Pero Magalhães de Gândavo, António Vieira, Santo Agostinho, Paracelso e até no Omar Cardoso (um horoscopista dos anos 70). Uma de minhas diversões consistia em extrair fatos da linguagem cifrada dos textos proféticos e discuti-las com meus amigos. O estilo dessa turba de iluminados é tão obscura, que qualquer tradução se afigura possível. Era um belo jogo de decifração. E os programas de televisão daqueles tempos incentivavam a prática de obscurantismo. Eu era menino e embarcava nessa. Há quem embarque até hoje nos astrólogos de plantão.

As invectivas ameaçadoras dos profetas me soam hoje inócuas. Como se não restassem mais profetas a recorrer, os realizadores foram buscar o pavor expresso nas previsões de uma civilização indígena extinta antes da chegada à América Central da horda sanguinária de dom Pedro de Alvarado, preboste do conquistador Hernán Cortés. Trata-se dos maias. Daqui a três anos, encerra-se a contagem do calendário desse povo, depois de 5 mil anos de vigência. Sim, agora há mais uma forte razão para entrar em pânico.

Já não sou otimista, como quando menino, que achava que o homem podia prever o dia de sua aniquilação – ainda que ele esteja se esforçando para facilitar o serviço dos visionários, tentando abreviar cada vez mais  o tempo entre a profecia e o acontecimento... Prefiro hoje professar a crença de Jorge Luis Borges, que dizia que a metafísica era um dos ramos mais fecundos da literatura fantástica.

A volta da moda dos maias é a prova de que a doutrina do eterno retorno que eles professavam pode voltar, nem que seja sob a espécie da cultura pop tardia, e de uma narrativa fantástica. Eu me lembro que no início dos anos 70 eles eram populares por causa do livro e depois do filme Eram os deuses astronautas? do arqueólogo e ufólogo suíço Erich von Däniken. Däniken escreveu 29 livros para demonstrar a tese de que as civilizações antigas haviam entrado em contato com extraterrestres tecnologicamente avançados que teriam aterrissado no planeta e passado algumas de sua superstições e conhecimentos astronômicos. A imagem mais forte de todas as que Däniken coletou é a do "astronauta maia", acomodado em uma espécie de cápsula espacial. Na realidade, tratava-se da fotografia do baixo-relevo que representa o deus alado da tumba de Palenque, no México. Miragem ou retrato fiel? Seja como for, os maias desenvolveram um calendário astronômico que se inicia no ano 3114 a.C. e se encerra no fatídico 2012.

Vou tentar esclarecer a questão e mostrar que os maias realmente previram o fim dos tempos para 2012, embora sem a agitação e os efeitos especiais de um filme catástrofe. Quando criança, eu me debrucei sobre os textos maias, além dos profetas e alquimistas europeus que citei anteriormente. Tive um surto maia com 11 ou 12 anos. Minha mãe era professora de História da América e tinha em casa As lendas do Popol-Vuh e Os livros de Chilam Balam, os dois volumes de escritos maias, considerados os documentos pré-colombianos mais importantes. Não há versão original de um e outro, já que a escritura pictográfica e simbólica dos maias havia se perdido antes da conquista. Esses livros foram elaborados depois da conquista. E resultaram da tradição oral e ritualística dos povos herdeiros dos maias.

O Popol-Vuh conta a história dos povos da região em que hoje se localiza a Guatemala e o sul do México desde a criação divina até a chegada dos espanhóis. É um lindo poema, escrito em espanhol por um índio quiché (descendente dos maias) que teria aprendido a ler e escrever com os padres jesuítas.

O Chilam Balam é uma coletânea de códices com textos das mais variados funções pertencentes aos povos maias da península de Yucatán. Nesses textos publicados no fim do século XVII sobre fontes antigas as mais diversas, há um pouco de tudo: receitas médicas, novelas espanholas, lendas puramente indígenas, rituais de sacrifício etc. Seu aspecto mais importante está nos relatos históricos (e proféticos) baseados no calendário maia. Os três códices remanescentes foram enviados à Europa, cotejados e unificados, pois constatou-se tratar-se da mesma crônica indígena, o relato das várias dinastias maias, formadas por sacerdotes e imperadores, sua expansão territorial e sua agonia.

Astronomia, astrologia, profecia e história compunham para os índios o mesmo ramo do conhecimento. Chilam Balam quer dizer Oráculo Jaguar. Conta ter sido um sacerdote maia que existiu antes da conquista. Balam teria previsto o fim da civilização maia e a substituição das antigas crenças por uma nova religião – que logo foi identificada como o catolicismo dos conquistadores espanhóis. E anteviu o fim do mundo.

O calendário maia da "conta curta" (há o da "conta larga", que não nos interessa aqui) compreende ciclos cujas datas se repetem a cada 260 anos tunes de 260 dias. Nesse período, há outro ciclo, que são os katunes, que se repetem de 20 em 20 anos. O último dia que encerra o ciclo de katunes é chamado de Ahau. Os números não seguem o sistema decimal, e seguem a seguinte ordem que forma um ciclo de treze: 8, 6, 4, 2, 13, 11, 9, 7, 5, 3, 1, 12, 10. No total, 260 anos, que voltam a se repetir ao final do ciclo. Para simplificar, as datas e seus acontecimentos de alguma forma são reprisados, com poucas variações: ciclos de abundância, de pobreza, de triunfo, de ambição, de luxúria... Até que o dia 21 de dezembro de 2012, katun 13 Ahau, quando terão se completado os 5.125 anos da fundação do império maia. Nesse dia, ocorrerá um inédito alinhamento de astros. E a roda da história vai se perfazer.  

O Chilam Balam registra em sua primeira parte o início da saga da tribo xiues, da saída da região de Nonoual no Katun 3 Ahau (de 849 a 869 d.C.) até que se estabeleceu em Chacnabitón, no Katun 5 Ahau (1086 a 1106 d.C.). Os europeus apareceram com a praga da varíola, que os descendentes maias assinaram como sendo katun 2 Ahau (1500-1520). O último katun (as derradeiras ocorrências históricas) registrado do Chilam Balam se dá no katun 5 Ahau (entre 1599 e 1618) quando o governador Diego Pareja realizou um censo demográfico. O derradeiro katun é o 3 Ahau, de 1618 a 1638, sem nenhuma ocorrência anotada.

Os textos restantes do Chilam Balam são os mais interessantes porque contêm as agora famosas profecias, que descrevem o "fim do mundo", como derretimento da Terra, o derramamento da seiva das plantas e a ressurreição dos mortos. Isso depois de um período de ambição, luxúria e desmesura. Diz o profeta:  "Virá o apressado arrebatar bolsas e a guerra rápida e violenta dos codiciosos ladrões: esta é a carga do katun para o tempo do cristianismo. A gente da Flor de Maio (os maias) terá grandes misérias, grandes padecimentos, terá o grande Itzá, Bruxo-da-Agua. No dobrar do katun deste décimo terceiro 8 Ahau cairá o poder dos Halach Uiniques, Chefes dos grandes Itzaes, Bruxos-da-água. Mas não por completo acabará a gente da Flor de Maio, porque no 9 Ahau emparelhar-se-ão escudos, emparelhar-se-ão flechas, até quando o Katun se encerre totalmente". Como qualquer texto cifrado e sagrado, este também dá vazão à fantasia.

Há pelo menos um fato concreto. Os descendentes atuais dos maias interpretam o profetizado Juízo Final como o recomeço do calendário maia, e o retorno aos valores puros do princípio dos tempos. O homem não será mais levado pela ambição e um virá um katun em que dominarão a liberdade, a igualdade e a fraternidade. O cataclismo de 2012, se houver, terá consequências éticas. E assim por diante na eterna roda dos katunes. Quem sabe novas eras de trevas ao infinito...

Se o longa 2012 fosse seguir à risca as profecias dos oráculos maias, teria que repetir os episódios de uma forma nauseante e anticinematográfica. De qualquer modo, como um bom enredo de filme catástrofe, os herdeiros dos maias desejam, também eles, um final feliz. Assim, de acordo com eles, o pânico é relativo. Talvez a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 no Brasil, já na pós-história maia, aconteçam sob a nova lei da felicidade. Isso se eu estiver interpretando o katun e o Ahau de forma precisa. Seria muito injusto para o Povo do Ipê Amarelo não realizar a sua vocação universal.  

 

 

 

 

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

A morte não presta


Ela só ensina uma coisa aos vivos: matem-me se forem capazes
            Morei por onze anos em uma rua na Vila Hamburguesa em São Paulo que começava no mundo dos vivos e terminava no dos mortos. Ou vice-versa. Eram oito casas do lado de cá e umas cem do lado de lá. Minha rua era a continuação da aleia do cemitério. Quando atravessava o muro, ela adquiria o nome de um vulto célebre: Numa de Oliveira, o banqueiro da Semana de Arte Moderna de 1922. Nessa estranha vizinhança de mortos com vivos, estes tratavam de viver suas vidas ignorando a realidade que se mostrava atrás dos muros em que repousavam os que já foram. A rua cheia de barulho de crianças, baloeiros niilistas e senhoras fofoqueiras não deixava ninguém quieto. Além de tudo dava para uma praça – e quem mora perto de praça tem de renunciar ao silêncio. Por isso eu costumava dizer que os vizinhos de lá eram os melhores do mundo, porque dormiam sem incomodar ninguém. Ao contrário, os defuntos mostravam que o silêncio em que estavam mergulhado prolongava a sua inexistência para sempre. Ensinavam que não havia nada mais vital que muita alegria e barulho. Com meus vizinhos do além, aprendi que eu não precisaria me preocupar em trabalhar menos ou buscar compensações nas poucas horas de descanso que me restavam, porque eu teria a eternidade para descansar.

            Na realidade, assimilei dos mortos só aquilo que me convinha. Não consultei meus antigos vizinhos longamente sobre isso. Ouvi vozes que não passavam do eco da minha voz interior. Quando penso na morte de pessoas queridas é como se eu tivesse de cruzar aos prantos a minha velha rua para chegar a cenotáfios, a túmulos vazios. Não há nada mais que a lembrança de frases, olhares, gestos, conselhos, despedidas. A tentação da pieguice é tão grande que dou as costas ao vazio e retorno à vida. Porque é o que resta. Seria mentira e fraqueza se render às ocas sugestões da morte. Não acho que a morte tenha uma grande aula a ministrar. Ela parece mais espantosa que a vida, porque assim o queremos. Praticamos o autoengano como uma forma de autoajuda. E professamos nossa fé e nossa perplexidade no nada.
            Eu a senti de olhos vendados, e a presenciei a olho nu. A morte surgiu para mim como aquela imagem medieval da "indesejada das gentes", a velha senhora ceifadora de vidas, passando o gadanho e amontoando milênios e milênios de mortos atrás de si. Eu odeio a morte por tudo o que ela já fez e fará. Por isso, acho graça dos poetas latinos, dos padres, dos filósofos e de Montaigne que dizem em uníssono: "Memento mori! Lembre-se da morte, e assim aprenda a viver!" "Filosofar é aprender a morrer", dizia Cícero. "Lembre-se da morte todos os dias", aconselhava Montaigne. A prédica é sempre igual: morra para viver, viva para morrer. As religiões postulam a nulidade deste mundo em nome da promessa de um paraíso depois da morte. As filosofias querem que sejamos seres-para-a-morte, como diria Martin Heidegger, criaturas cuja consciência da finitude nos traria a iluminação, a consciência perfeita do universo. Todos eles querem persuadir os mortais a se anular, a se render a um fato consumado, o de que a morte tem a última palavra. É ela que ri por último... na melhor das hipóteses, conduz de canoa os nossos corpos impotentes pelo rio Estige, como na tela de Platinir que está no museu do Prado, da luz à penumbra. A intenção dessa gente é nos transformar em beatos ou em cidadãos resignados. Mas todos eles disseram isso enquanto estavam vivos. Mortos, não voltaram para dizer mais nada.  
            Quantas pessoas sábias hoje mortas eu não entrevistei como jornalista? Muitas, e m recordo bem do que cada uma delas me disse em vida. E a obra que deixaram, se deixaram, é uma manifestação da vida, e não de uma suposta glória póstuma. Em outubro de 1992 eu estava em Zurique e queria entrevistar Elias Canetti porque eu me identificava com sua revolta perante a morte. Esse pensador nascido na Bulgária em uma família judia,  criado no ambiente antirreligioso da Viena fin-de-siècle e estabelecido por 20 anos em Londres, contrariou a tradição do pensamento favorável à morte. Ele mostrou em suas memórias, no romance Auto-de-fé e no ensaios em Massa e Poder que a morte nada possuía de edificante. Muito ao contrário: os massacres em massa dos judeus pelo regime nazista e a aniquilação de centenas de milhares de vida em um segundo com as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki só rebaixavam o ser humano e o reconduziam à barbárie. Para Canetti, nessas ocasiões evidenciava-se "a culpa do sobrevivente". Aquele que escapa à catástrofe (e Canetti sobreviveu ao Holocausto) passa a desprezar a montanha de mortos – e a sentir uma espécie de júbilo por não ter ele também sucumbido. Escreveu ele em Massa e poder:  "Apropriar-se do outro transforma-se num jogo ou num divertimento. As massas de mortos, cada vez maiores, não são apenas praticáveis: elas são desejadas para valorizar a sobrevivência." Se é isso que a morte ensina, pensava Canetti, então é preciso combatê-la, odiá-la e matá-la.

           Eu queria ouvir esses libelos contra a morte da própria boca de Canetti. O pessoal da embaixada da Suíça me forneceu o endereço e o telefone dele, e fui atrás. Ele morava em um prédio pequeno no centro da cidade, e, me disseram, estava retirado, queria se concentrar em escrever o máximo possível. Canetti tinha uma mania, me contaram: mantinha um arsenal de lápis amarelos apontados diante de si para escrever em cadernos grandes, e passava horas assim. Ele e sua filha Anna moravam juntos, e seria quase um pecada perturbar a paz do pensador. Respirei fundo e, como repórter tem de ter cara de pau, liguei do hotel onde estava hospedado para o telefone que me deram. Atendeu uma voz masculina aguda. "Não, não posso atender, estou ocupadíssimo com meus escritos, por favor não perturbe!" Não era um pedido ríspido, e sim quase suplicante. Pus lentamente o telefone no gancho e me esforcei para esquecer o episódio. Afinal, ele acontece tantas vezes na vida de um repórter...

          Canetti morreu dois anos depois, aos 89 anos. E foi nesse ano de 1994 que ele confiou à Biblioteca de Zurique os seus escritos inéditos, sob a condição que a instituição divulgasse a obra em 2004.Mas em 2005, por ocasião do centenário do escritor, os pesquisadores Thomas Macho, Penka Angelova e Peter von Matt começaram a desrespeitar o desejo do morto. Pareciam saber que Canetti faria mesmo caso eles estivesse na mesma situação. A estimativa dos conservadores do legado do filósofo é de que sua obra publicada representa apenas 10% de suas produção total. Então muita coisa está vindo à tona. No Brasil, elas começam a chegar agora. São eles o volume Sobre os escritores (José Olympio, 210 páginas, organização de Penka Angelova e Peter vVon Matt, tradução de Kristina Michahelles),  Sobre a morte (Estação Liberdade, 256 páginas, organização de Thomas Macho, tradução de Rita Rios) e Festa sob as bombas: os anos ingleses (Estação Liberdade, 232 páginas, tradução de Marcus Lasch). Confesso que li com excitação esses três volumes de inéditos, e continuo surpreso, tanto pela constatação de que escapei de ser rechaçado naquele meu telefonema, pois a personalidade de Canetti se revela explosiva nesses textos, como pelos detalhes de sua obsessiva luta para refutar o conceito de morte. É como se Canetti se materializasse na minha frente. Seu caso tórrido com a escritora Iris Murdoch é contado em Festa sob as bombas, e traz detalhes saborosos, como o fato de Iris se despir com facilidade e não ser lá muito seletiva nem sensual (ela o chamaria de "misógino prepotente"). Mas o que importa para mim é sua obsessão pela morte. Ao negá-la, ele a cita o tempo todo: "Quem não se deixa dissuadir a respeito da morte tem mais religião que os outros". Aos que defendem os bons conselhos da morte, responde: "Pensar que ainda se tem de pleitear a morte -  como se ela não estivesse em vantagem absoluta". Um de seus últimos textos remete ao meu início: "Sobre os sentimentos gerados pela visita a cemitérios". Segundo Canetti, as pessoas passeiam pelos cemitérios presas de um estado de espírito singular: ao ver tantos mortos em volta, elas exibem "uma satisfação secreta": o triunfo sobre a morte. Há mais uma declaração, redigida em 1985: "Já que tem de ser – diz-se que sim – já que, seguramente, tem de ser, ele quer morrer com o lápis amarelo em punho, sobre uma palavra ameaçadora contra a morte."

           Creio que o filósofo tenha estrebuchado de lápis em riste, tentando golpear mortalmente a morte. Ele me fornece um apoio teórico ao que eu já pensava, e nunca deixei de pensar: a morte só ensina que precisa ser assassinada. Por isso, entendo os cientistas que buscam aumentar a vida humana para 150, 200  anos. É o suficiente para irritarmos um pouquinho mais essa indesejável senhora. Eu gostaria de um dia vencê-la.


Sábado, Novembro 07, 2009

Anselmo Duarte, vítima do star system brasileiro

 
Anselmo Duarte foi vítima da inveja dos colegas

 

                Anselmo Duarte é até hoje considerado o mais importante cineasta do Brasil. Sua história como galã absoluto da Vera Cruz e sua trajetória como diretor o tornaram insuperável. Ele foi o primeiro (e até hoje único) diretor brasileiro a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962, pelo filme O pagador de promessas. Além disso, ele conquistava todas as mulheres e era um galã. Sua carreira foi  literalmente invejável. Foi tanta inveja em cima dele, que ele foi banido da arte para a qual nasceu, o cinema. Tornou-se um folclore. E agora o perdemos sem ter consciência de sua enorme importância para o cinema nacional.

                O ator e diretor talvez parecesse um chato, porque sempre estava reivindicando para si próprio a coroa do cinema brasileiro. Ele de fato sempre a mereceu. Mas a turma "jovem" do Cinema Novo, por pura inveja, tratou de desqualificá-lo, de tachá-lo de popular, de pessoa sem formação. Como Anselmo  contou em uma biografia lançada nos anos 90 (recomendo a leitura, porque traz saborosos detalhes de bastidores), ele de fato vinha do cinema primitivo, não obteve títulos universitários como os moços do Cinema Novo, nem era metido a crítico de cinema, como Glauber Rocha, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor e a turminha toda. Era um sujeito simples, direto nas suas ideias e nas sua visão de cinema. E como os cinema-novistas dominavam o jornalismo cultural, ele foi banido, desprezado, espezinhado.

                Entrevistei algumas vezes o Anselmo. Era um sujeito imponente e jamais perdeu a majestade de galã. Falava com grande orgulho de seu passado, mas sempre com delicadeza. Seu rancor era quase lírico. Ele queria ser reconhecido como o maior. Quem viu O pagador de promessas sabe de sua dimensão. Um filme que agarra a alma brasileira e suas crendices pela raiz.

"O Brasil não é para principiantes", costumava dizer Tom Jobim, que em vida também foi incompreendido, para depois virar santo na morte. E é verdade. Ter excesso de talento é um grande problema neste país. Sobretudo se você não faz parte de uma turma influente e intelectualmente "superior". Isso aconteceu com Anselmo, ator romântico e cineasta exemplar, bonito, inteligente e ainda por cima popular. Era demais para os desmazelados garotos do Cinema Novo...

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Lévi-Strauss, o estruturalista relutante

 O legado do pensamento do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss é tão grande que não cabe em uma disciplina. Sua influência se projetou em várias áreas do saber a partir da segunda metade do século XX: a psicanálise lacaniana, a teoria estrutural da narrativa de A.J. Greimas, a semiologia de Roland Barthes, os estudos literários, a estética e até a sociologia e a história (Michel Foucault foi discípulo de Lévi-Strauss). Seu campo de pesquisa foi aparentemente restrito. Ele estudou as relações de troca de sociedades indígenas, como a dos nhambiquaras do Mato Grosso (que visitou em 1938, quando dava aulas na USP).

Reprodução
PESQUISA DE CAMPO
Reprodução do livro Lévi-Strauss, Antropologia e Arte, Minúsculo - Incomensurável

Começou como qualquer cientista: da experiência à elaboração teórica. Levou duas décadas estudando o material coletado, para então extrair dali uma teoria que se revelou inovadora. Simplificando muito, Lévi-Strauss demonstrou que o pensamento selvagem não era inferior ao pensamento lógico civilizado. Era simplesmente outra lógica. Segmentá-la, descrevê-la e interpretá-la era o dever do antropólogo. Lévi-Strauss defendeu que a pesquisa de campo deveria se importar menos com materiais coletados do que com as relações estruturais que repousam na prática de linguagem e no dia-a-dia. Esta constatação simples teve um efeito avassalador nas pesquisas a partir do fim dos anos 40, em especial nas ciências humanas. Se o signo importa mais que os objetos e os organismos, tudo teria de ser refeito: a reflexão sobre a cultura, o inconsciente, a literatura e as artes. Assim surgiu o estruturalismo.

No final dos anos 40, seu livro Antropologia Estrutural estabeleceu os paradigmas para o estruturalismo, o estudo das relações de trocas, símbolos e linguagem. Strauss partiu da linguística, disciplina fundada no início do século XX pelo gramático suíço Ferdinand de Saussure. Este demonstrou que o objeto de estudo da linguagem deveria ser o signo (significado/sigmificante) e de seus desdobramentos. Lévi-Strauss utilizou a linguística para estudar as trocas de signos, mercadorias e mulheres entre os nhambiquaras. Da línguística, elaborou sua antropologia estrutural. Abriu uma seara de trabalho que até hoje segue produzindo novidades. Os pós-estruturalistas não deixam de sentir a ansiedade da influência de Lévi-Strauss.

Curiosamente, o campo teórico que ajudou a fundar levava para um caminho completamente diferente do que ele imaginou: o da teorização pura e simples e, como disse Michel Foucault em As palavras e as coisas (1966), o apagamento do homem nas ciência humanas. Um paradoxo que sempre soou mais retórico do que real para Lévi-Strauss. Os estruturalistas viraram os chatos da teoria que abole a prática.

Por tudo isso, Lévi-Strauss não se considerava ele próprio um estruturalista. Suas últimas reflexões, publicadas no volume das edições Pléiade, publicado no ano passado, se debruçavam sobre o drama de Shakespeare e outras obras literárias. E seu método era, podemos dizer assim, estilo livre. Foi um pensador humanista e nada dogmático. Um dos maiores do século que passou.

O twitter muda o mundo? Acho que não.

Vou começar retuitando um blog. Morri de rir da observação do jornalista e cartunista Marcelo de Andrade em http://etristeviverdehumor.blogspot.com. “Como o Twitter muda a vida das pessoas?”, pergunta o blogueiro, para responder logo: “Muitas delas têm LER/DORT antes do tempo.” É verdade. Tenho visto tuiteiros tuitarem e serem vítimas de Lesões de esforço repetitivo e Distúrbios Osteomoleculares Relacionados ao Trabalho (ou ao Twiiter). Entre outras mazelas, muitas delas relacionadas aos usos da cultura. Eu vou além. O twitter liberou o potencial humano de produzir milhões de besteiras por centésimos de segundo. São 25 milhões de usuários ativos seguindo uns aos outros para serem seguidos também. E o número tende a crescer. A burrice explodiu como se alguém lancetasse um inchaço verbal reprimido. A imbecilidade é a doença terminal da civilização tecnologicamente avançada – e o twitter, a sua plataforma mais virulenta.

Imagine uma parcela expressiva da família humana exercendo o poder de emitir opiniões, palpites e outras coisas formando um organismo que lembra uma gigantesca serpente planetária mordendo a própria cauda e girando em altíssima velocidade. Imaginou? Eis o twitter: o Leviatã da nanomixórdia. Pela primeira vez, é possível ter uma imagem em tempo real do que pensa e faz a aldeia global, veja só que progresso. E a aldeia não pensa nada, como sempre. Ela segue os instintos mais primitivos, quer sobreviver e triunfar na twittosfera. À pergunta que está impressa no topo do twitter (“O que você está fazendo?”), a maioria responde com nulidades sobre a vidinha medíocre que leva, e não tem vergonha de expor. Para grande parte das pessoas, 140 caracteres é espaço demasiado. Nem precisava tanto. Daí a virulência do twitter, que suplanta todas as outras redes sociais, os sites, os messengers e os blogs. No twitter, ninguém precisa extravasar pensamentos e refletir como nos blogs, onde o espaço é virtualmente infinito – e onde cabe também e sobretudo o besteirol infinito. Na realidade, os blogs dão guarida a pensamentos e reflexões em geral inúteis e rebarbativas que ficariam mais colocados em poucos caracteres. Já vi muito blogueiro mudar para o twitter porque era um alívio não ter de alimentar seu blog com inutilidades. No twitter quanto mais idiota melhor. É o paraíso dos tolos.

O twitter só reforça o que muitos filósofos e cientistas vêm repetindo há milênios. Ele dá a noção exata de que a maior parte da humanidade é formada por imbecis. Uma turbamulta de gente sem ter o que dizer obstrui as páginas da rede com suas mensagens estapafúrdias, fúteis e inócuas, quando não cretinas. E o mais chocante é que todo mundo está aderindo, até os mais resistentes, até os sábios que falavam mal... Tem sábio totalmente viciado, entrando em convulsões de prazer via twitter. O cara quer tuitar aforismos úteis, mas eles caem no esquecimento um segundo depois de tuitados. No mundo dos pios quem pensa já está lá atrás... Foi soterrado pela enxurrada de banalidades. Sábios são exceções em quaisquer dos mundos, o real e os virtuais. O que cresce mesmo é o pensamento vivo do populacho: o nada.

Uma reportagem da revista Wired deste mês, assinada por Steven Levy, informa que o CEO do Twitter, Evan Williams, estima atingir os 100 milhões de usuários no final do ano que vem... e 1 bilhão em 2013. A expectativa de Williams é de o twitter vire a maior rede social do planeta. Só falta à empresa de South Park (uma localidade próxima a San Francisco) ganhar dinheiro com o negócio fundado em 2006. Na realidade, como diz Levy, nem mesmo os criadores do twitter imaginavam no que a ferramenta se transformaria. São os próprios usuários que criam seu uso e expandimos limites do serviço. Foi o caso do retwitter (que já aportuguesamos para retuiter), o programa de encaminhamento de mensagens, criado por Dan Zarrela, um especialista em marketing viral. O retwitter virou uma praga dentro da praga, porque tornou possível citar twitts (prefiro tuítes) ad nauseam até a eternidade. É mais fácil encaminhar algo do que escrever, obviamente. E isso tem causado um excesso de tráfego no site, obrigando a empresa a aumentar a capacidade de seus servidores. Não é o twitter que transforma o mundo, mas sim vice-versa: o mundo transforma o twitter e o recria à sua imagem caótica. É uma ferramenta multiuso amebóide que cresce sem parar. Invente uma função que ela vai caber no twitter. Não invente, e vai caber também.

O falecido teórico da comunicação Marshall McLuhan dizia que os meios de comunicação eram extensões dos sentidos humanos. Para ele, o cinema era a prótese da visão, o rádio da audição, o computador do cérebro e por aí vai. O que ele diria do twitter? Talvez o definisse como a extensão da sinapse cerebral mais imediata e incontrolável, a mensagem que corre mais rápida que um piscar de olho. O usuário nem pensou ainda e já está levando a público aquele átimo de protopensamento, aquela impressão que ainda não ganhou forma. Tuitar lembra o velho telegrama: uma mensagem curta e povoada de abreviações para não gastar espaço. Só que o twitter é o mais das vezes um telegrama carregado de inutilidade. Ninguém tem o que dizer, mas diz, e todo mundo gosta, responde, retuíta – e assim corre a humanidade, esfalfada, sabe-se lá para onde... e cada vez mais numerosa. Agora o twitter explodiu. E, para muitos, tornou-se o maior veículo de transformação da internet. Ele de fato conseguiu uma façanha extraordinária: converter a vaga impressão em produto. Até a aparição do twitter, em 2006, o domínio dessas impressões indefinidas era difícil de localizar por motivos óbvios: não havia um duto por onde elas pudessem correr. O que o twitter fez foi segmentar, isolar e criar a colônia de milhões de vaguidões que conhecemos.

Para que serve, enfim, essa ferramenta que se transforma à medida que a manipulamos? Serve para quem fizer bom uso dela e conseguir criar o seu espaço com uma rede de relações. Nos desastres e nos protestos, como no Iraque no começo do ano, ele já disse a que veio. Imagino que ele esteja sendo usado nas guerras que acontecem neste momento pelo mundo. O efeito do twitter em uma guerra é parecido com o que aconteceu no século XIV, quando a pólvora começou a ser usada nos campos de batalha. O twitter é a nova pólvora virtual. Os tuítes são mais rápidos do que balas. Eles podem chegar antes delas ao destinatário. Isso pode ser usado também para o mal, como qualquer ferramenta.

Ora, apesar de tudo, pode-se extrair inteligência no vagalhão de informações inúteis e impressões sem sentido. Não vejo muita diferença entre o mundo e o twitter. Um é a imagem do outro. Ambos são fontes de tristeza, bobagem e beleza. O twitter, como o mundo, não tem sentido. Cabe a nós lhe dar algum e cultivar nele o nosso jardim, como dizia Voltaire. Há formas sintéticas de pensamentos, como os haicais e os aforismos, e elas podem ainda vencer no campo virtual do twitter. Não digo derrotar os imbecis (esta guerra já foi ganha), mas, pelo menos, fazer brilhar lampejos de pensamento na noite profunda, como vagalumes. Se muitos vagalumes se unirem, quem sabe consigam iluminar os caminhos do intercâmbio de informação instantânea que o twitter proporciona e é mal usado? O twitter ensina a pensar mais com menos. É uma lição desafiadora, porque parece ilógica. Como dizer algo que valha a pena em escassos 140 caracteres? Abreviaturas e links úteis, talvez. Sim, há gente fazendo isso, como se fossem dinossauros iluministas aprisionados a um minúsculo dedal. Essas pessoas devem ser seguidas. Ou não...

Mesmo engolfado por ondas de idiotices, e pela sanha de ser seguido e seguir, sou capaz de vislumbrar uma twittosfera melhor. Há qualquer coisa de novo no twitter, nessa esfera que mencionei do pré-pensamento e da potência que pisca e pia o tempo todo em nossos monitores e celulares, atravessando e burlando os sistemas da internet até chegar ao indivíduo, em emanações vindas diretamente de nossos neurônios. De alguma forma, o twitter acena com algo que julgávamos improvável. Ele demonstra que a fusão perfeita entre o pensamento e a ação é possível. Uma utopia viral? Ou então pode dar origem a um novo poder que venha a controlar, contaminar e aleijar nossas sensações mais frívolas e impensadas.

Zé Rubem mais pulp do que nunca


Existe no Brasil algum ídolo jovem com mais de 30 anos? Sim. Ele se chama Rubem Fonseca... e tem 84 anos. O escritor mineiro e criado no Rio de Janeiro é idolatrado por todo e qualquer adolescente aspirante a escritor. Zé Rubem (em foto ao lado, feita em Israel em 2006), como é conhecido, criou uma forma de narrar que virou referência: as frases curtas e nervosas, o vocabulário chulo misturado às citações eruditas, personagens refinados, grosseiros e excêntricos que vagueiam pelo submundo e o grand monde carioca, a volúpia pela violência, o sexo e o macabro. Tudo isso  tem sido copiado. Mas ele guarda um ingrediente secreto: a fluidez e a agilidade com que conta uma história, arrastando - para usar um chavão intraduzível - o leitor até a última linha.
Hoje ele é o ficcionista mais celebrado do Brasil. São 11 romances e 14 livros de contos. Já ganhou os cinco Jabutis e os prestigiosos prêmios Juan Rulfo e Camões. Só falta o Nobel. O problema é que seu modus operandi literário não o credencia para o prêmio. A Academia Sueca glorifica os bonzinhos. Fonseca é o avesso disso. Retraído, não faz conchavos literários ou políticos. Evita a pose de intelectual e cultiva hábitos de quem já foi ajudante de mágico, comissário de polícia e revisor de jornal: corre todo dia na praia e anda pelas ruas atrás de sebos e restaurantes portugueses. Para culminar e lhe tirar qualquer chance, a literatura que pratica é cruel;  pior, despretensiosa. 
Não é de espantar que seu novo e esperado romance, O seminarista (Agir, 184 páginas, 36,90), seja uma obra de pulp fiction, de literatura noir do tipo B, feita para decepcionar a crítica e agradar ao público.  A obra exibe todos os elementos que o fizeram célebre. A história do ex-seminarista e matador José é coalhada de ação, violência e ironia. Pode ser adaptada para o cinema como outras obras suas (ele se diz "cineasta frustrado") e para história em quadrinhos. Converter O seminarista em romance gráfico é o plano do selo Agir, que passa editar toda a obra do autor. Outro projeto é lançar até o fim do ano o romance em formatos digitais para Kindle e iPhone  e iPod. A editora quer assim aproximar o autor de seu público jovem. Ela passa também a reeditar sua obra completa, em edições especiais, coordenadas e apresentadas pelo jornalista Sergio Augusto. Com O seminarista, saem dois volumes  de contos clássicos de Fonseca:  Os prisioneiros, sua estreia em 1963, e  Lúcia MacCartney, livro pop lançado em 1969. Um terceiro volume, de 80 páginas, já virou raridade, pois não terá circulação comercial: a novela A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro, lançada em 1992 na coletânea Romance negro e agora reeditada com um ensaio fotográfico do cineasta Zeca Fonseca, filho do autor.  A previsão da Agir é relançar todos os livros do autor até o novembro de 2010.  
A comparação do novo romance com os dois títulos dos anos 60  demonstra o quanto a arte de Fonseca começou inovadora e foi se "degenerando" – ou se tornando popular -  décadas afora. Com Os prisioneiros, ele obteve repercussão crítica consagradora. No posfácio,  Sergio Augusto informa que os mais importantes críticos e escritores dos anos 60 viram em Fonseca o maior inovador do conto brasileiro, uma mistura de Franz Kafka e Edgar Allan Poe. Quando publicou Lúcia McCartney, já era um best-seller. E sua reputação ganhou peso com o passar do tempo, na razão direta do aumento de suas manias, como posar de Greta Garbo, não dando entrevistas nem permitindo fotos. De dois anos para cá, começou a se deixar fotografar, mas só por parentes e amigos.
O seminarista revela outra excentricidade do autor: a recusa de continuar sendo celebrado nos altos círculos literários. Esse pequeno romance policial deverá figurar entre suas obras menores. Isso porque Fonseca aumentou o tom de farsa e reduziu a veracidade da trama. É um livro que faz rir com as cenas de violência, dado novo na ficção fonsequiana, que, apesar de irônica, não incorrria na comédia. José é um matador profissional conhecido cmo o Especialista. Ele apareceu em contos do seu livro anterior, Ela e outras mulheres (2006). Não tem a credibilidade de outros personagens do autor. Sua densidade é a de uma página de quadrinhos. É ele quem narra a história. Quer se aposentar e se dedicar à sua mulher, à leitura ( aprendeu a gostar de autores latinos no seminário) e a ver filmes.  No entanto, quanto mais tenta se livrar da antiga profissão, mais é arrastado à violência.  Como em quase todos as histórias de Fonseca, há uma bela mulher, a alemã Kirsten, que será morta. Ao mesmo tempo que mata, José é caçado por traficantes e empresários desonestos, como o misterioso Ziff. O ritmo veloz da ação não impede que José a interrompa para fazer suas citações e contar piadas. Numa passagem crucial, ele se encontra com o amigo D.S. em um restaurante português. Então o dono do estabelecimento demora-se a explicar o preparo do bacalhau à Gomes de Sá. Em outro capítulo, José arromba a casa de Ziff para matá-lo. Eis a descrição: 'Fui enrando pela casa e matando tudo que se mexia na minha frente, acho até que matei um cachorro, um papagaio e um peixinho dourado dentro de um aquário". O corretivo que ele dá a Ziff é torturá-lo devagar, para obter uma confissão. Em seguida, estoura-lhe os miolos.
Talvez não seja justo nem lícito cobrar de um autor ancião mais do que do que ele já fez para as letras nacionais. Acontece que, no novo livro, o estilo de Zé Rubem soa mais juvenitl do que quando estreou. É como se ele quisesse mostrar que tudo o que criou antes não passasse de um reles cacoete de estilo. Ou provar aos epígonos que o que fez já não pode mais ser copiado, nem mesmo por ele.