segunda-feira, 5 de março de 2012

A amante de Machado de Assis?

Em cartas, o escritor maduro revela afeto incomum por uma jovem casada

Machado de Assis (1839-1908) teve uma amante?
É a questão que o diplomata e crítico literário Sergio Paulo Rouanet deixa entrever, com extrema discrição, no recém-lançado volume III da Correspondência de Machado de Assis, publicado pela Academia Brasileira de Letras, que abrange o período que vai de 1890 a 1900, dos 51 aos 61 anos do escritor. Na condição de jornalista abelhudo que não tem mais uma reputação a perder (se é que teve um dia), eu tomo a liberdade e cometo a indiscrição de levantar mais abertamente a suspeita – ou, como prefere denominar Rouanet, “bisbilhotice póstuma”. Trata-se de um sentimento indigno, porém próprio ao cético Bentinho sobre a fidelidade de Capitu em Dom Casmurro, romance que Machado escreveu ao longo de quatro anos e a editora Garnier fez imprimir em Paris no final de 1899 e só lançado no início do ano seguinte. É apenas um detalhe aparentemente sem importância, trazido à tona pelo trabalho monumental de Rouanet, que traz não só informações importantes sobre a trajetória de Machado, como corrige muitos erros e omissões.
As cartas, bilhetes e cartões a ser distribuídas em cinco volumes (a ser publicados até o fim de 2013, o quarto neste ano) ajudam a compreender o papel de Machado de Assis como fundador da Academia de Letras, correspondente ativo e passivo de ficcionistas como Magalhães de Azeredo e de críticos como José Veríssimo, cidadão discreto, avesso à política e afeito às questões estéticas. No entanto, sob a barba já branca do “Bruxo do Cosme Velho” (detesto esse apelido popularizado pelo poema “A um bruxo, com amor”, de Carlos Drummond de Andrade, mas vá lá), batia um coração quem sabe não raro inconstante, dado, talvez, a devaneios amorosos, e certamente atento à alma feminina, que retratou em várias personagens, como a intrigante Capitu, a doce Helena e a sorrateira Sofia, de Quincas Borba. Na juventude, convém lembrar, ele dedicou seu primeiro poema publicado à soprano italiana Anette Casaloni, por quem teria se apaixonado. Teve algumas aventuras quando jovem. Uma carta, de 30 de outubro de 1899, seu colega maranhense Graça Aranha cometia várias indiscrições que devem ter enfurecido Machado. Uma delas foi contar, por imagens canhestras, que havia lido Dom Casmurro em primeira mão em Paris, sem a devida permissão do autor (e tinha certeza de que Capitu era adúltera). Outra foi fazer a seguinte declaração meio como desculpa: “Se em alguma coisa alguma evocação de figura amada, em tocar em certas reminiscências lhe causei qualquer inquietação ou sobressalto perdoe-me porque, meu bom amigo, entre os homens ninguém o ama mais. Entre homens, por que entre as mulheres...”
Para alimentar a suspeita sobre o caso de Machado, inspiro-me nesse tipo de declaração de Graça Aranha e nas entrelinhas das duas cartas que Machado enviou à jovem aspirante a escritora paulistana Rafaelina de Barros (1878-1943) em 1896, quando Machado, no ápice da fama, funcionário público exemplar e casado havia 26 anos com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Morais, contava 56 anos e Rafaelina, apenas 18. Isso segundo as datas oficiais, sobre as quais Rouanet e suas duas escudeiras no projeto de organizar a correspondência completa do autor, as pesquisadoras-detetives Irene Moutinho e Sílvia Eleutério, lançam dúvidas. Afinal, a intrépida Rafaelina já era casada com um comerciante quando escreveu a Machado. Além disso, começava a iniciar uma relação com o poeta paranaense Emílio de Meneses (1866-1918), também casado, bem como excêntrico e conhecido boêmio do Rio de Janeiro.
Rafaelina e Emílio viveriam uma paixão arrebatadora em meados da década de 1890. O caso provocou escândalo na Capital Federal. Emílio levou uma surra do marido ultrajado, e Rafaelina abandonou o lar tornando-se companheira e musa para a vida inteira do escritor. Ela estreou na ficção como volume de contos Almanara (192) e, em 1923, publicou o livro de poemas Bíblicas. Quando enviuvou, tornou-se zeladora e organizadora da correspondência de Emílio (hoje desaparecida) e ajudou com dinheiro ao escritor Lima Barreto, que vivia praticamente como mendigo no fim da vida. 
Rafaelina era apaixonada por amar escritores (se vivesse hoje, faria networking nas várias festas literárias espalhadas pelo país). Ela já morava com Emílio quando escreveu duas cartas a Machado. “O que é surpreendente nessas duas cartas de Machado é o tom misterioso, cheio de subentendidos”, afirma Rouanet. A primeira, datada de 6 de abril de 1896, solicitando que ele lhe enviasse uma cópia da tradução do poema “Corvo”, de Edgar Allan Poe, que Machado havia feito e ainda era inédita em livro. As cartas se perderam (ou teria sido eliminada pelo pudor do próprio destinatário?). Segundo Rouanet, é provável que Rafaelina atendesse a um pedido do companheiro Emílio, que também estava preparando uma tradução do poema. Em 20 de abril, Machado envia uma carta à “prezada Senhora Dona Rafaelina de Barros”. Ele cumpria uma das duas promessas que fizera a ela, enviando incluso o poema de Poe. Quanto à segunda, escreve Machado, “pesa-me confessá-lo, há razão que só à vista lhe poderei dizer, e que me impede de a cumprir, como deseja cordialmente. Creio que o meu pesar é maior que o seu, por mais amável que seja da sua parte sentir algum.”
A segunda carta, datada de 25 de maio de 1896, responde à de Rafaelina, que deve ter declarado que a leitura da tradução do poema de Poe a fez se alegrar, em uma espécie de alteração do efeito da ave, agora tropical e alegre. Traz comentários de Machado sobre a tradução: “Que o Corvo tivesse produzido nessas sertanias, o efeito da ave alegre e feliz, é notícia que me lisonjeia muito, mas não atribua só a mim este grande regalo. É principalmente do poeta americano. Sem a beleza original da concepção, é certo que eu não chegaria a fazer coisa que prestasse. Como, porém servi de intermediário à inspiração original, fico satisfeito pela parte que tive nas suas comoções.” Rafaelina parece ter se encontrado com Machado, e falado sobre lágrimas antigas. A isso, Machado respondeu, com alguma indiscrição: “Sobre as lágrimas de tempos idos não lhe digo mais nada, além do que falamos sábado. É memória que nunca perdi, e pode imaginar-se se me haverá penalizado tamanha dor sem culpas de uma por causa involuntária de outro”.
Rafaelina certamente havia trocado confidências com o escritor três dias antes, no sábado, 23 de maio de 1896. Onde teriam se encontrado? Certamente não no Cosme Velho nº 18, onde o escritor vivia aparentemente em harmonia com Carolina. Será lícito desconfiar de que Rafaelina seduziu definitivamente Machado de Assis naquela ocasião? Será que falaram de seus respectivos cônjuges – e talvez dessa palestra adúltera tenha surgido a inspiração para construir a personagem da adúltera (ou não) Capitu? Leram juntos “Corvo”? Ou juraram não se encontrar, feito o corvo, “nunca mais”, e assim potencializar a paixão? Pois, conforme escreveu Machado, "A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras.”
A suposição mais racional é de que houve simplesmente um encantamento, uma simpatia de Machado pela moça e vice-versa, e nada mais. Talvez uma paixonite que um e outro tratou de sarar. Daí a prudência dos organizadores do volume em não extrapolar os limites da pesquisa. Mas, para um reles jornalista – e que me perdoem Rouanet, Irene e Sílvia – , não deixa de ser tentador imaginar a queda do autor de meia-idade por uma jovem de 18 anos, no esplendor da curiosidade, inclusive literária. Toda esta fantasia já me inspira um conto...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O segredo dos palestrantes

O que seria do mundo sem os palestrantes? Talvez um lugar muito melhor. Você já deve ter reparado como este país virou alvo privilegiado deles. De epidemia nos anos 90 e 2000, passou nesta nova década à condição de peste incurável. E o assédio é total. De repente, você está no emprego, e o RH faz a convocação para todos assistirem a uma palestra sobre as lições do boto amazônico para a liderança. Acaba de sair um livro intitulado Madre Teresa CEO. Seria melhor intitular o livro de “A freira e o executivo”. Abundam especialistas em generalidades as mais inimagináveis: desportistas falam das lições de vitória aplicadas ao trabalho; ex-filósofos montam cursos de treinamento para atendentes de telemarketing; psicografia aplicada às vendas...
Todo acadêmico fracassado percebe que fazer palestra em empresa é lucrativo. Conheço vários gênios universitários promissores que trocaram seus altos ideais por um faturamento maior. Não os condeno, porque a carreira acadêmica é mal-remunerada e frustrante, e não há boa instituição que escape da pasmaceira e da rede de inveja. Acaba sendo mais lucrativo discorrer superficialmente sobre assuntos nos quais o acadêmico se aprimorou, mesmo que para uma audiência de zé-manés. Estes formam o público-alvo dos palestrantes, já que a formação no Brasil é uma vergonha. 
Em terra de cego, conferencista é pensador. Os olhinhos brilham quando ele discorre sobre superação e cita neurolinguística, psicanálise ou uma proposição do saudoso e sempre lembrado pelas pessoas erradas Ludwig Wittgenstein. O público se sente recompensado, mesmo que seja com vidrinhos de mais falso brilho intelectual. “Vou usar este aforismo na próxima reunião!”, pensa o gerente que assiste à apresentação.
As palestras são aulas-shows divertidas, até porque os especialistas usam data show para projetar figurinhas e frases de efeito, em corpo bem grande, para todo mundo entender. Cada conferencista guarda o seu sistema de exibição. Há o piadista ou o que faz passos de funk para acordar a patuleia. Há o democrata que “abre o debate” para ganhar tempo. E também aparece às vezes o vulto professoral que defende autoajuda como se fosse uma tese de doutorado em Harvard. O cara deve ter feito curso em Harvard pela internet.
Que reis do sofisma eles são! Usam exemplos para sustentar um argumento assertivo que em geral não se apoia na realidade. Eles vendem tudo como se fosse “o Segredo”, da força do pensamento positivo à Arte da Guerra de Sun Tzu, do Cristo gênio corporativo à física quântica ao alcance de um clique, de Madre Teresa ao diabo a quatro.
As pessoas já não creem em mais nada nem têm padrões éticos ou lógicos claros. O resultado é que viraram reféns do engano bem embalado. Os palestrantes preenchem a lacuna da nossa ignorância. O problema é a superpopulação desses sábios de araque. Daqui a pouco serão tantos que vai haver gente bradando manual corporativo pelas ruas, feito pregador de Bíblia. Não quero estar por perto nesse dia. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Sem noção de limite

Uma das características mais idiotas do atleta de fim de semana, entre muitas outras, é a sua total falta de modéstia. A ambição destemperada de realizar em poucas horas o que ignorou no resto dos dias. É ridículo ver aqueles sujeitos desengonçados tentando se equilibrar e fazer jus a seus tênis inteligentes recém comprados. Olhe ali adiante um desses camaradas: calça um tênis de marca, inadequado a corridas (como ele não pensou nisso antes?); camiseta branca suada, no seu boné está escrito “Speed Racer”, mas ele parece mais um ser rastejante: o sujeito está sem fôlego e, mesmo assim, tenta disfarçar a expressão de martírio. Que figura triste. E deve chover.
Esse aí sou eu. É tão ruim que eu próprio já o ultrapassei – pelo menos em pensamento. Estou bem longe desse cara grisalho, frágil e resfolegante que embestou de competir numa corrida no último sábado. Não o invejo. Já cruzei a linha de chegada e ele já ficou para trás, o otário. Imaginou que seria fichinha percorrer cinco quilômetros nos arredores da raia olímpica da USP. Deu com os burros n’água e, como dizia meu avô, deitou os bofes para fora. Bem-feito. Quem mandou?
O importante é competir, lembrou do chavão. Não ia vencer, mas uma pontinha de pretensiosa esperança o fez sentir-se poderoso. Na saída, a maior euforia. Começou a correr como um campeão... É engraçado como na largada todo mundo é igual. Olhou para trás e eu estava quase no batalhão de elite, com um monte de gente atrás. Tudo correu bem nos primeiros 500 metros.  
Nos quilômetros seguintes, tudo correu bem exceto ele, a falta de condicionamento físico veio cobrar a sua parte. Passou a alternar momentos de caminhada e corrida, de lucidez e ilusão, de pensamentos filosóficos tirados da velocidades e a luta inglória para recuperar o fôlego com um gole de água do copinho que distribuíram no meio do caminho. A chuva não veio, o ar estava fresco.
Enquanto isso, os corredores que ele viu lá trás já o haviam ultrapassado. Parecia uma corrida ao contrário: ele, cada vez mais para trás. Lembrou-se da fábula da lebre e da tartaruga. Ele se sentia na pele da lebre que parou no meio da corrida para dormir, tão longe estava da tartaruga. Quando acordou, a tartaruga já enchia o peito no pódio... Há 205 séculos, Esopo já havia previsto o que lhe aconteceria.
Já praticamente um cadáver ambulante, ele resolveu não entregar os pontos. Correu, parou, correu... parou... e, no trecho final, até fez pode de vitória quando cruzou a linha de chegada. Decidiu aceitar o papel de... tartaruga - animal, aliás, mais sábio que lebres e atletas bissextos. O importante não é nem ganhar nem competir. É se dar conta do ridículo – enquanto é tempo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não me roubem a noite

Ela tem o seu regime. O seu principal elemento é, claro, a escuridão. Noite só é ela por escurecer. Ao errar numa dessas noites pela rua Racine, em São Paulo, lembrei-me do escritor do século XVII que emprestou o nome ao logradouro. Na tragédia Athalie, o francês Jean Racine fala do "horror de uma noite profunda", a escuridão que leva o sujeito a mergulhar nos dilemas e no temor que guarda no obscuro da alma. A rua Racine ainda faz jus a seu padroeiro, e pode assustar pelo breu, como antigamente. Outras ruas próximas, no entanto, estão sendo iluminadas por lojas e bancos, roubando a noite do meu bairro, de todos os bairros.
Caminho do breu das árvores em direção ao brilho das vitrines, observando o seguinte: à medida que a história se desenrola, os habitantes das cidades contraem um pavor crescente de escuro - e querem enxotá-lo para mais longe. Thomas Edison inventou a lâmpada em 1879 e, desde então, a humanidade vem sendo iluminada em escala assombrosa.
Os sedentos de eletricidade costumam dizer que esta cidade é detentora de poucas luzes, se comparada a Paris ou Nova York. A noite no centro dessas duas metrópoles cintila. Paris, a Cidade Luz, começou a ser iluminada em arcos voltaicos isolados no ano da invenção da lâmpada. A Torre Eiffel e a lâmpada incandescente surgiram ao mesmo tempo, uma lançando fachos de glória à outra. Nova York, a primeira cidade a ter rede de iluminaçã, em 1891, tem o Times Square, onde a noite é sempre dia por causa dos prédios que emitem raios estroboscópicos e imagens tridimensionais.
Nossa boca do sertão, como foi apelidada São Paulo nos seus primórdios, só ganhou sua rede elétrica em 1891, uma década depois das então grandes capitais - o Rio teve luz antes. Dessa forma, a Pauliceia até hoje não ficou de todo às claras. Talvez ela seja atrasada e candidata ao título de cidade-apagão. Mas a admiro assim, com seus lampejos bruxuleantes e raios que vez ou outra explodem os tansformadores. Será que alguém neste mundo precisa de arrabaldes e periferias com tantos postes e luminárias? Será que alguém precisa da avenida Paulista tão clara como anda hoje, com sua iluminação de LED, a provocar cegueira nos seus antigos passeantes?
A lâmpada é a cúpula apoteótica da rede elétrica. É a invenção fundadora da civilização tecnológica. Mas, talvez, a luz mais e mais resplandecente venha a nos ofuscar os sentidos. Um clarão que pode ofuscar a ponto de os homens do futuro serem incapazes de ler no papel. Agora me encontro diante de um computador: contemplo o nascimento destas palavras emergindo de uma radiação. O monitor não passa de uma lâmpada achatada. E pensar que a própria lâmpada incandescente, rainha do século XX, esá sendo aposentada.
Em vista do avanço da iluminação, chego a apreciar a calada dos blecautes que vez por outra assaltam o meu bairro em São Paulo. Pelo menos assim a gente não tem dúvida de que a noite da alma ainda pode se encontrar com a noite aqui fora. Sem luz, o ar fica menos superficial.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

No coração de Machado de Assis

O que as cartas, os bilhetes e outros textos menores dizem de um artista? Às vezes muito, às vezes escondem quase tudo. No caso de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), sua correspondência completa, publicada pela Academia Brasileira de Letras (ABL), tem trazido a público aspectos desconhecidos ou não muito abordados da carreira, das ideias e da personalidade do escritor considerado unanimemente o mais importante do Brasil - e, por conseguinte, o mais estudado de todos. Cartas, bilhetes, cartões etc. igualmente ocultam detalhes que excitam a curiosidade do leitor. Como em seus contos e romances, na correspondência Machado mais insinua do que afirma.
O trabalho de organização das cartas enviadas a Machado e respondidas por ele, sob o título de "Correspondência de Machado de Assis", tem sido empreendido desde 2008 pelo crítico e pensador Sergio Paulo Rouanet e de suas duas assistentes, as entusiasmadas pesquisadoras-detetives Irene Moutinho e Sílvia Eleutério. Cada volume lançado provoca enorme alvoroço nos meios literários e acadêmicos. O tomo I abrangia o período de 1860 a 1869. O tomo II - 1870 1889 saiu em 2009. O terceiro volume foi concluído no fim do ano passado.
Curiosamente, o número da cartas aumenta de tomo a tomo, à medida que os pesquisadores vasculham o material. No fim do ano, será lançado o quarto volume, abordando o período de 1901 a 1904. O plano inicial era perfazer quatro tomos, mas o número de cartas no período final do escritor obrigou os organizadores a aumentarem um volume, o último, que deverá ir de 1904 a 1908, a ser editado no fim de 2013. "Quanto mais pesquisamos, mais nos surpreendemos", diz Rouanet. "Em relação a Machado, há sempre algo a descobrir."
Há muito a descobrir na correspondência que vai de 1890 a 1900, reunida no terceiro volume. As 292 missivas mostram Machado no ápice da carreira. Entre os 51 e 61 anos, ele redigiu e fez publicar dois de seus romances mais importantes - "Quincas Borba" e "Dom Casmurro" - e trabalhou para fundar e institucionalizar a ABL. Trocou ideias com críticos, colegas e personalidades da época, reagiu discretamente aos ataques de inimigos, deu conselhos a amigos jovens e até encontrou tempo para se envolver com uma mulher.
A intimidade e o trabalho se entrelaçam nas cartas do escritor, que se confessa "spleenético" ao pupilo Magalhães de Azeredo - a quem aconselha o trabalho literário para curar a melancolia. Machado interrompe uma carta a Azeredo e justifica que tinha sido acometido pelo "mal" - numa rara menção à sua epilepsia.
Ao crítico José Verissimo, Machado narra o esforço para criar suas histórias. "Quincas Borba", por exemplo, custou quatro anos de trabalho. A amizade com Verissimo não parecia tão clara quanto agora, pelo tom amistoso e descontraído que os dois mantêm. As cartas de Joaquim Nabuco e Graça Aranha a Machado revelam que os dois leram "Dom Casmurro" em outubro de 1899 em Paris, antes de o volume ter sido lançado no Brasil, no início de 1899. Graça Aranha mostra que já não gostava da ABL em 1897, apesar de instado por Machado de Assis a fazer parte da instituição. Ora, o que se sabia até agora era que Graça romperia com a academia em 1924, quando se arvorou em líder do modernismo. Outro detalhe é a forma como Graça se dirige a Machado, chamando-o de conquistador e fazendo gracejos - que fizeram que Machado suspendesse a correspondência com ele por quatro anos.
Machado evitava o tom informal. Gostava de manter a respeitabilidade. Tinha um cuidado especial para a ABL e se recusava a discutir política. Em bilhetes a várias autoridades, ele se esforça para aprovar a lei Eduardo Ramos, que colocava a Academia Brasileira de Letras como instituição federal. Esse esforço do escritor não é citado pelos seus principais biógrafos. Outro erro histórico que a correspondência corrige diz respeito à primeira sessão solene de posse de João Ribeiro, para ocupar a primeira vaga de um imortal morto, Guimarães Jr. Diferentemente do que informam os historiadores, ela não aconteceu em 30 de novembro de 1898, mas em 17 de novembro.
Mesmo ciente de seu papel de liderança no campo literário, Machado deixou escapar seus sentimentos. Nesse sentido, a parcela mais saborosa do volume está nas duas cartas que Machado envia à escritora paulistana Rafaelina de Barros (1878-1943) em abril e maio de 1896. Rafaelina havia se separado de um marido comerciante para viver com o escritor Emílio de Meneses. Em uma carta não encontrada, ela fez dois pedidos ao romancista: o envio da tradução do poema "Corvo", de Edgar Allan Poe, feita por Machado, e um favor não revelado. Machado atendeu ao primeiro pedido, mas não ao segundo: "Pesa-me confessá-lo, há razão que só à vista lhe poderei dizer, e que me impede de a cumprir, como deseja cordialmente. Creio que o meu pesar é maior que o seu, por mais amável que seja da sua parte sentir algum."
Na segunda carta, de 25 de maio de 1896, Machado se refere ao encontro que os dois tiveram: "Sobre as lágrimas de tempos idos não lhe digo mais nada, além do que falamos sábado. É memória que nunca perdi, e pode imaginar-se se me haverá penalizado tamanha dor sem culpas de uma por causa involuntária de outro". Essas passagens densas de subentendidos sugerem que houve no mínimo uma simpatia encantada do velho escritor para com a moça. Teria sido Rafaelina a mulher que inspirou a personagem Capitu?
Esse tipo de pergunta não pode ser respondida pela leitura da correspondência machadiana, já que as cartas mais lançam dúvidas do que esclarecem. Elas mostram apenas parcialmente o que se passava no coração do escritor. Mesmo assim, ajudam a redefinir a imagem do mito mais cultuado das letras brasileiras.

Valor Econômico, 3/3/2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sertanejos universais

O que Michel Teló, Gusttavo LIma e você ensinam sobre a cultura popular

A reportagem sobre o cantor, compositor e acordeonista Michel Teló, publicada em ÉPOCA, causou repercussão. Houve manifestações ufanistas, mas muitos leitores escreveram à Redação para questionar a abordagem do texto, que afirmava que a música de Teló reflete os valores da cultura popular brasileira. Na revista e no resto da realidade, as reações ao som a um tempo dançante e sertanejo do cantor têm sido conflitantes. O público se divide entre um suposto coro dos contentes e a parcela crítica e intelectual dos consumidores de cultura. De um lado, exulta o público que frequenta festas e baladas, rebola e se diverte com músicas de Teló como “Ai, se eu te pego (assim você me mata)”. De outro, bradam com indignação os eternos baluartes do bom gosto, que gostariam de ouvir o mundo povoado de sambas, clássicos e a boa música popular brasileira – a tal MPB, termo que agora seria apropriadamente trocado por “samba universitário”. Trata-se do retorno meio burlesco do antigo debate em torno de cultura de massa, popular e erudita. Burlesco porque essa era uma discussão da década de 60 do século passado. Tais divisões caíram por terra, e tudo se converteu neste século em mercado e estratificação de gosto. Vou tentar demonstrar que o sertanejo universitário de Teló, Luan Santana e Gusttavo Lima possui tanta legitimidade quanto a congada paulista, a chula gaúcha, o choro e o samba de morro carioca, entre outras manifestações musicais... quer gostemos ou nem tanto.     
A recepção negativa daquilo que chamávamos antigamente de “intelligenstia” (ninguém mais usa o datado termo russo) me remete a meados da década de 1990, quando apareceu o grupo É o Tchan – e, com ele, vários outros artistas do pagode baiano. As pessoas de gosto refinado viravam a cara para os requebrados de Carla Perez, e fechavam os ouvidos para o samba de roda praticado por É o Tchan. Examinados em perspectiva, percebemos que esses músicos praticavam cultura popular brasileira. Ou não era cultura?
Entendo o que o público sofisticado quer dizer. Como tantos outros, sou saudosista. Gosto de escrever em Times New Roman, como se fosse uma caligrafia minha, vício decorrente de minha teimosia em continuar a escrever à mão. Escrevo em Times New Roman assim como adoro povoar o meu jardim com sambas de Cartola, Chico Buarque, Brancura e Marçal. No dicionário da música, ainda estou na letra B: ouço Bach, Brahms, Berg, Beethoven. Bem entendido, é apenas o meu jardim. Por vezes ele é invadido por ruídos de máquinas e hits das baladas sertanejas hoje em moda, como foi antes tomado pelo funk, o pagode, o tecnobrega, o rock e o pop mais desqualificado. Não raro, essas músicas entram no meu quintal e acabo me divertindo com elas. Às vezes tudo o que eu sou obrigado a ouvir é “Eu te amo e open bar”, o novo sucesso de Michel de Teló. Eu não sou surdo. Não sou de aço.
Minha própria condição de jardineiro infiel me leva à dedução de que aquilo que o público sofisticado quer dizer não se coaduna com a realidade. Estamos na segunda década do século XXI. A expressão popular se alterou profundamente com a imensa quantidade de informação trazida pelas novas tecnologias, como a interconexão planetária imposta pela internet. O brega se juntou ao tecno, o samba ao funk, o forró ao eletrônico – e assim ad nauseam, numa inevitável corrente de acasalamentos artísticos, ideológicos (opa, mais uma palavra banida) e culturais. Vamos nos cingir ao caso do Brasil: uma nova classe média se alevanta, e com elas, seus valores mais queridos. A nova classe média antes respondia pelo gosto popular. Mas agora ela dá as cartas, tornou-se determinante (“mainstream” é o termo em voga) em ditar gosto, modos de vida e comportamento. Atitudes e palavras que talvez repugnem a elite, mas que nunca deixaram de fazer parte dos valores populares, e agora penetram insidiosamente nos hábitos e folguedos da classe dominante globalizada.
Essa promiscuidade do imaginário é o que músicos como Teló, Luan e Gusttavo Lima refletem e trazem à tona com força transformadora. Refrãos como o de “Balada boa”, gravada por Gusttavo Lima já são sucesso do verão e traduzem os vocabulário dos jovens nas baladas sertanejas, que viraram arenas de liberdade e sexo: "Gata, me liga, mais tarde tem balada, quero curtir com você na madrugada: dançar, pular, que hoje vai rolar o 'tchê tcherere tchê tchê’”. Gestos obscenos como os de “Ai, se eu te pego” são repetidos mundialmente, em versões as mais inusitadas. É repugnante - e irresistível.
Se examinadas mais a fundo, as escatologias dançantes e sonoras contêm elementos tradicionais e veneráveis. São emanações da cultura dos sertões brasileiros, agora compartilhadas pelo mundo todo. Luan Santana é sul-mato-grossense. Assim também Michel Teló, paranaense criado em Campo Grande. Gusttavo Lima é mineiro educado em Goiás. Paula Fernandes, mineira de Sete Lagoas radicada em São Paulo. Cada um deles a seu jeito e intensidade mistura folclore, música universitária e pop. Luan vem da tradição caipira. Gusttavo é fortemente influenciado pela axé-music da Bahia – por sua vez fundada nas batidas dos blocos afros de Salvador. Paula Fernandes se vale da toada e da modinha brasileira.

Paula Fernandes, Luan Santana, Michel Teló e Gusttavo Lima (Foto: Tomas Rangel/Ed. Globo,Alexandre Rezende/Folhapress,Rogério Cassimiro/ÉPOCA,divulgação)

Michel Teló merece mais atenção. Ele filho de gaúchos, começou a tocar gaita de 80 baixos aos 7 anos, fez parte durante oito anos do Grupo Tradição, de Campo Grande, e se notabilizou como virtuose da gaita – ou sanfona, como se diz em São Paulo. Ele elaborou um estilo peculiar de executar ritmos semifolclóricos, como o vanerão e o xote gaúchos (de “scottish”, dança escocesa comum nos fandangos sul-riograndenses do século XVIII, que mais tarde passaram a ser tocados no Nordeste brasileiro), fundindo-os com o baião e outros ritmos nordestinos. Teló me disse que gosta de chamar seu estilo de “pancadão sertanejo”. Dessa forma, ele realizou uma síntese das danças do Sul e do Nordeste do Brasil. E avança para novas ousadias. Seu último sucesso, “Eu te amo e open bar” introduz, de forma inusitada, a sanfona na música dançante eletrônica do século XXI. Basta reparar como Teló se vale de refrãos de sanfona em meio ao batidão. Teló traz uma cadência mais sulista ao cabedal de síncope brasileira – e isso talvez seja o motivo de sua música ter pegado tanto no plano internacional. Por ser mais “dura”, mais marcada, sem abdicar da dançabilidade (acabo de forjar o termo, inspirado no vocabulário de videogame), ela é facilmente compreendida pelos estrangeiros. Acho que o excesso de síncope da música brasileira afasta os gringos, incapazes de compreender os contratempos de forma integral, coisa que os brasileiros fazem de modo natural.
Os sons distantes das baladas do sertão chegaram até o centro e os bairros sofisticados das grandes capitais do Brasil e agora conquistam o mundo. Agora não adianta evitar: somos todos sertanejos, somos todos universitários e mundializados. E como tudo está cada vez mais igual a tudo, não surpreende que o batidão de “Ai, se eu te pego” e sua coreografia simiesca tenha se transformado na nova “Macarena”, o sucesso da dupla espanhola Los del Río de 1996. O Brasil figura como uma das sete maiores economias do mundo, e sua música deve se impor como referência. Que seja via esses sertanejos que se revelam universais. O resto é preconceito.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Somos todos bregas

O antigo mau gosto musical virou convicção no Brasil
Discos sempre foram para mim fontes de descoberta. Talvez o hábito de ouvi-los tenha ficadp fora de moda por causa da internet e da pirataria, mas nada se compara em nitidez sonora a um CD feito com plástico, alumínio e bits sonoros. Pois ontem escutei dois discos de duas cantoras representantes de faixas de público aparentemente diversas que me ajudaram a refletir sobre a atual situação da música popular brasileira: O que você quer saber de verdade (EMI), da cult MPB carioca Marisa Monte, e Ao Vivo (Universal), da mineira e sertaneja Paula Fernandes. 
Há dez anos, para não ir muito longe, minha experiência sonora seria considerada abstrusa, pois obviamente duas artistas de registros tão diferentes iriam apenas mostrar a multiplicidade da música brasileira – e reafirmariam minhas convicções em relação àquilo que é refinamento e singeleza. Marisa, representante da alta cultura; Paula, das camadas populares. Mas minha experiência não se deu assim. Antes pelo contrário: o que eu ouvi nos dois discos são cantoras quase idênticas, entoando baladas românticas muito simples, acompanhadas por instrumentos acústicos, repletas de uma versalhada tida antes por piegas, tresmolhados de bons sentimentos e mensagens de amor nada discretas. Ambas seriam chamadas de bregas no Brasil Velho. Nos anos 60 e 70, a música romântica influenciada pelo bolero, a modinha e a toada caipira era considerada um produto barato, para uso do povão. Nos 80, bandas da vanguarda paulistana e cantores como Eduardo Dussek exploraram a verve paródica, meio que esnobando o brega, mas lucrando com o gênero. Depois da apreensão ingênua e da paródica, as pessoas assumiram o gênero com pungente fé. Hoje o brega é a convicção de um povo. Ele se consagrou. Marisa e Paula, duas grandes artistas vocais brasileiras, assumem com serenidade o novo bom gosto. Uma prova de que o brega se converteu em cult –e vice-versa.
Paula Fernandes e Marisa Monte (Foto: Tomas Rangel / Editora Globo e Dora Jobim)
O cult está brega. Isso quer dizer que o cidadão brasileiro cool e descolado se vale de tod tipo de referências para compor a sua roupa, seu modo de agir e seu imaginário. Esse novo comportamento reflete a mudança demográfica do país, com a ascensão das classes C e D. Essas camadas se tornaram importantes e terminam por impor seu gosto, seus hábitos e costumes ao restante da sociedade de consumo. A gente vê isso na novela Fina Estampa, da TV Globo, de Aguinaldo Silva. Ela relata a ascensão social da pobretona Griselda (Lília Cabral), que de quebra-galho se torna empresária. A novela não maquia a luta de classes, e mostra o conflito entre a emergente Griselda e a socialite Maria Teresa (Cristiane Torloni). Baseado em pesquisas, o autor faz um retrato realista de como a mulher brasileira se tornou chefe de família, está galgando posições – e, no universo da cultura, obriga a turma do narizinho empinado a prestar atenção no que ela gosta, no que ela sente, pensa e consome. Esse “ovo Brasil” é uma realidade insofismável. É preciso considerá-la e respeitá-la. Os novos-ricos e os novos-classe-média vieram para ficar e se mostrar, para horror das marias-teresas da vida.
Além da novela, o cinema brasileiro tem explorado, de uns cinco aos para cá, o universo da nova classe média: são favelas que enriquecem com o tráfico e o tráfico que domina os “bem-nascidos”(Tropa de Elite 1 e 2, Meu nome não é Johhny), mulheres que lutam para sobreviver sem preconceito (O céu de Suely, Bruna Surfistinha, De pernas para o ar), formas de arte em extinção que insistem em se manter vivas (O palhaço, Suprema Felicidade), personagens que questionam a identidade e os tabus sexuais (Se eu fosse você 1 e 2). É um novo mundo que se descortina, e talvez não se coadune com aquela ilha da fantasia sonhada pelos estetas, que hoje só sabem admirar o cinema classe-média-bonitinha da Argentina. Infelizmente (eu diria felizmente), o Brasil não é a Argentina. O Brasil se mostra muito mais rico e variado em termos demográficos e, por isso, culturais. Se é cultura “inferior” nos padrões europeus, paciência.
Os gostos, os hábitos, os amores e os ventos mudam, já dizia o poeta seiscentista Luís de Camões. Até a novidade sofre tantas e tamanhas metamorfoses em sua estrutura que chega o dia em que as coisas mais antigas, descartáveis e antes desprezíveis viram artigo de luxo. Experimentamos hoje o choque do velho, em contraposição ao que preconizavam as vanguardas artísticas até os anos 1920. No terreno da música cultura de massa, o processo se acelera ainda mais. Não apenas velhos paradigmas voltam à tona – trata-se de uma forma de reciclagem rápida dos produtos culturais – como também os usos e costumes de classes sociais antes antagônicas começam a interagir e a se fundir de forma irreversível, alterando o que se pensa sobre o mundo e como se consome arte, entre outras coisas.

Capas dos CDs de Paula Fernandes e Marisa Monte (Foto: Divulgação)
 
Mas voltemos à música, que sempre foi a antena das tendências por aqui, e, apesar de viver momentos não muito brilhantes, continua a ser uma arena de mudanças. O que tem acontecido na música brasileira é uma quebra de paradigma. Caiu a hegemonia do eixo Rio-São Paulo. A música axé da Bahia tomou conta do país inteiro, e gerou estrelas como Ivete Sangalo, Claudia Leitte e Carlinhos Brown. O interior invadiu as capitais, e surgiu o forró universitário e, mais recentemente, o sertanejo universitário. O funk se fundiu com o samba e a MPB. E vieram para baixo os sons amazônicos. ÉPOCA publicou recentemente uma reportagem intitulada “E o brega virou cult”, de Mariana Shirai, sobre o gênero tecnobrega paraense e sua influência no movimento Avalanche Tropical, que congrega bandas e DJs bregas do país inteiro. Dessa enxurrada fazem parte a cantora Gaby Amarantos, Garotas Suecas e a Banda Uó.
O que as vertentes do pós-bom gosto ensinam? Em primeiro lugar, que é inútil ter preconceitos musicais, porque ela é invasiva mesmo, capaz que é de se apossar de sua alma. Em segundo, que aquilo que é considerado de mau-gosto na verdade ajuda a enriquecer a imaginação. Em terceiro, que nada é fixo no mundo, e nada mais dinâmico e pervasivo que o som. Quarto, torna-se urgente reavaliar nossas próprias crenças artísticas.
Por isso, finalmente o “populacho” e os “caipiras” invadiram os salões. Na nova geopolítica sonora do Brasil, podemos ouvir os ecos do brega na voz de Marisa Monte, e traços de erudição na de Paula Fernandes. Junte as duas e o resultado será parecido com Vanessa da Mata, uma acoplagem do sertanejo e do alto pop dançante. Junte a duas e você ouve a volta ainda não anunciada de Zezé di Camargo & Luciano. Você vai entender nas entrelinhas o tecnobrega, a axé. Junte-as em uma audição e você comporá o seu rosto. O Brasil joga na nossa cara quem e como somos de fato. Querendo ou não, se fazendo de culto ou nem tanto, você é brega, meu velho.